terça-feira, 29 de novembro de 2011

Visão Sistêmica e Inteligência Coletiva

Workshops in company

Desenvolvimento de Líderes e Times
 Relações em Jogo® / O Jogo da Transformação®

O futuro das organizações - e nações - dependerá cada
 vez mais da sua capacidade de aprender coletivamente.
Peter Senge

É bastante incerta a origem dos jogos de tabuleiro, mas eles são encontrados em culturas milenares e representam nosso universo mítico. O tabuleiro é uma metáfora da trajetória do homem para atingir seu propósito. A trilha reproduz os passos do caminho – que sempre é feito de obstáculos e superação.


O jogo recria situações do cotidiano, nas quais os participantes têm a oportunidade de acessar novos meios de pensar e novas formas de responder, podendo vivenciá-las num contexto seguro - livre das implicações que a experiência teria numa situação real. Porém, a ampliação de percepção gerada por essa vivência resulta em mudanças de atitude e comportamento frente às situações reais.

Relações em Jogo® explora a questão das relações humanas no trabalho e propicia o ambiente da discussão criativa, geradora de insights. O workshop favorece a reflexão e a transformação de crenças e padrões de comportamento cristalizados, que estão na origem dos conflitos interpessoais que inibem o potencial do time. Jogo customizável: possibilidade de desenvolvimento de tabuleiro e demais elementos do jogo com temas voltados à realidade e aos objetivos do grupo.


O Jogo da Transformação® é um instrumento criativo e refinado que captura a essência do processo de mudança. Os participantes identificam bloqueios e trabalham de forma cooperativa, ativando e compartilhando recursos na busca pela superação e transformação. Desenvolvido na Fundação Findhorn (Escócia) - um centro de educação holística e transdiciplinar reconhecido pelas Nações Unidas como modelo de desenvolvimento sustentável.

Os dois jogos ativam a capacidade crítica e criativa do time, enfatizando a visão sistêmica, a inteligência coletiva e a percepção dos recursos intangíveis; atributos que são os grandes geradores de valor na sociedade do conhecimento.

Sandra Felicidade - Psicóloga - CRP 08/12815. Consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos de tabuleiro cooperativos. Atua principalmente com os temas: visão sistêmica, inteligência coletiva, novos paradigmas, relações humanas no trabalho.  É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates desde 1998.



terça-feira, 8 de novembro de 2011

O tempo de mudança

“Nada que interessa se pode guardar.”
Oswaldo Montenegro

Durante a vida passamos por muitos momentos de crise. Em geral, sinalizam o fim de um ciclo - o esgotamento de um modo de viver. Quando encerramos as possibilidades de aprendizado em uma situação, surge a crise. Então, temos duas opções: permanecer na zona de conforto ou aceitar o desconforto que nos impulsiona a crescer e alcançar uma perspectiva mais ampla. Nossa escolha depende da capacidade de dar o primeiro passo e construir um caminho -  uma trilha - que nos conduza a essa nova realidade. Esse é o início do processo de mudança. 
Sempre ouço as pessoas dizerem que a resistência à mudança vem do medo do desconhecido. Naturalmente, pensamos no “desconhecido” como um conjunto de circunstâncias desconhecidas que precisaremos aprender a lidar, quando tudo já era tão familiar. A familiaridade dá um senso de identidade e até mesmo de propósito, que podem ser verdadeiros ou não – ou não mais. Quem já passou por mudanças importantes sabe que o grande desconhecido que encontramos pelo caminho somos nós mesmos. As mudanças significativas envolvem desconstrução, perda, expectativa, entusiasmo, incerteza, resiliência, curiosidade, dor, frustração, reconstrução, fé. Ninguém passa por um turbilhão desses sem uma transformação pessoal profunda.
Nossa autoimagem está apoiada nas coisas que conquistamos, nos papéis que desempenhamos, nos nossos relacionamentos. A mudança, voluntária ou involuntária, é uma perda dessas referências. Nosso senso de identidade é frágil - está apoiado em coisas que são externas e impermanentes. Essas coisas dizem ao mundo - e a nós mesmos - quem nós somos. Só que isso tem um bom tanto de ilusão e as grandes mudanças produzem um confronto inevitável.   
Há muitos anos ouvi a escritora americana Sara Marriott contar um sonho que teve quando foi convidada a vir morar no Brasil. Na época ela tinha 75 anos e morava em Findhorn - na Escócia. Ela dizia que todos os fatores externos indicavam que a ideia era absurda. A idade avançada, a saúde frágil, o idioma estranho – tudo dizia que não era prudente aceitar o convite. Mas o propósito de sua longa permanência em Findhorn já estava concluído e o próximo passo de seu “propósito maior” envolvia o Brasil. No conflito gerado pela perspectiva da mudança ela teve um sonho muito significativo.
Ela precisava subir uma escadaria sobre um abismo imenso e tudo era muito escuro. Ela não enxergava nem mesmo os degraus e não sabia como conseguiria chegar até o outro lado.  De repente, intuiu que deveria dar um passo. Quando deu o primeiro passo o degrau seguinte apareceu. Deu mais um passo e o seguinte apareceu. E assim foi até que atravessou o abismo e chegou ao outro lado. O sonho trouxe um grande insight para o seu dilema. Ela não conseguia visualizar o caminho completo porque ele ainda não existia. A "ponte" foi construída através dos passos que ela deu. Enquanto dava os passos para a vinda ao Brasil, ela foi estruturando uma “nova” Sara. Certamente, uma desconhecida.
Acredito que esse é o grande desafio da mudança. Não são as circunstâncias desconhecidas que nos assustam. O projeto mais desafiador é a construção de uma nova pessoa. Nós sempre estamos preparados para lidar com a situação nova. Mas nunca sabemos quem é a pessoa que vamos encontrar do outro lado da ponte. Esse é o verdadeiro desconhecido, que será forjado no caminho.
"... para nós, não tem fim o chamado da vida.
Saúda, pois, e despede-te, coração!"
Hermann Hesse - Andares


Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga - CRP 08/12815. Consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. Atua principalmente com os temas: visão sistêmica, novos paradigmas, relações humanas no trabalho.  É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates desde 1998. Contatos: (41) 3093-9989 / (41) 9841-4078 / sandra.happiness@terra.com.br / http://br.linkedin.com/in/sandrafelicidade
Vídeo: Oswaldo Montenegro interpreta "Estrada Nova" (Oswaldo Montenegro). Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=yJ0dii2ilf4. Acesso em 08/11/2011.

Foto: Com Sara Marriott e Theresa Carlota - Nazaré Paulista, setembro/1998. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Meditação - Aprendendo a olhar para dentro

Parte I

“Quem olha para fora sonha;
quem olha para dentro, acorda.”
 Jung

O estilo de vida que adotamos, principalmente nos grandes centros, faz com que fiquemos voltados o tempo todo para os apelos externos – que são inúmeros e concorrem entre si. É fácil perceber como a vida está pautada nos referenciais externos. O valor de uma pessoa é medido pela sua competência, entendida basicamente como a capacidade de gerar resultados nas ações voltadas para fora – pessoal e profissionalmente. Vivemos numa aceleração totalmente arbitrária que desrespeita nossos ritmos naturais, causando uma grande confusão orgânica e psíquica. Nossas vivências mais elementares são mediadas por tecnologias sofisticadas que vão se tornando imprescindíveis. Estamos tão ocupados em absorver informação externa – muitas vezes descartável e inútil - que ignoramos sistematicamente nossa principal fonte de informação que é interna. Meditar é adquirir o controle da própria energia psíquica e acessar nossa fonte de informação interna, que é perfeita e está disponível permanentemente.


O termo meditação é abrangente e contempla diversos métodos de educação mental. Embora as diversas técnicas estejam presentes em diferentes tradições espirituais, a prática da meditação e os seus benefícios independem da adesão a qualquer sistema religioso. Como exercício mental, sua prática não entra em conflito com nenhuma religião. 

O método de meditação baseado na concentração em um único ponto é o mais comumente praticado. Ao focar em um único ponto - que chamamos de “âncora” -  estamos mantendo nossa atenção em um canal muito afiado, no qual a densidade de energia psíquica fica muito maior. As implicações disso são tremendas. Os físicos quânticos vêm estudando o que as tradições espirituais já sabem há milênios: quanto maior a densidade de energia, maior o poder criador da consciência no mundo objetivo.

Estamos criando nossa própria realidade a todo momento, através do modo como pensamos – gostemos disso ou não. Nossa realidade é a materialização dos nossos padrões mentais. O grande problema é que habitualmente somos tomados por uma cadeia de pensamentos involuntários. Em geral, temos muito pouco controle sobre os nossos processos psíquicos. É muito difícil identificar em que momento fomos tomados por um determinado pensamento. Quando percebemos já fomos capturados por uma teia mental.

Podemos ilustrar esse processo da seguinte maneira. Suponha que um acontecimento qualquer do cotidiano faça você se lembrar de uma experiência significativa do passado. Essa lembrança aciona um pensamento que sempre terá uma ou mais emoções envolvidas – boas ou más. Pensamento e emoção estão intimamente relacionados – um serve de combustível para o outro. A emoção ativada vai alimentar outros pensamentos compatíveis com aquele padrão emocional e com o pensamento original. Os pensamentos sempre “andam em turma” – cuidado! Se esse processo evoluir de forma autônoma, você ficará preso em uma “prisão perceptual” que influenciará a leitura que você faz da situação em que está e, consequentemente, sua maneira de se posicionar.

A meditação é o treino sistemático para educarmos nossos processos mentais e identificarmos os gatilhos que ativam a cadeia de pensamentos/sentimentos nocivos. Ela permite sair da “zona de ruído” da nossa própria turbulência mental, para que possamos acessar um ponto mais sutil e elevado do nosso próprio ser (que não está contaminado pela experiência). Esse é o ponto onde encontramos orientação, inspiração, serenidade, apoio e os insights – que podem trazer soluções para os nossos maiores desafios.

Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga - CRP 08/12815. Consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates. Praticante de meditação há mais de 20 anos.

Contatos: (41) 3093-9989 / (41) 9841-4078  
sandra.happiness@terra.com.brhttp://br.linkedin.com/in/sandrafelicidade

Vídeo: Meditation - Then and now (http://www.yesplus.org.br/). Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=_OS5ez7DVzs. Acesso em 25/10/2011.

domingo, 16 de outubro de 2011

O Dinheiro e o Significado da Vida* - Jacob Needleman

“Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios.”
Paulinho da Viola



O dinheiro é um elemento central na nossa vida, estejamos conscientes disso ou não. A todo momento - das escolhas cotidianas às decisões mais amplas - há uma motivação relacionada à questão do “ganhar ou perder”, em termos materiais e financeiros. Há também uma preocupação permanente com a escassez que distorce nossa percepção do que é suficiente e, com isso, passamos a ter necessidade de acumular. As principais conquistas da sociedade moderna e os maiores problemas da atualidade, de alguma forma, dizem respeito à nossa relação com o dinheiro – individual e coletivamente.
No livro “O dinheiro e o significado da vida”, Jacob Needleman propõe uma reflexão profunda sobre a forma com que lidamos com a questão do dinheiro. O autor expõe nossa postura de reverência diante desse deus, gerada pela perda de significado e de percepção do sagrado em nossas vidas. Abaixo, compartilho trechos do “guia do usuário” – adicionado pelo autor, como convite à reflexão sobre o lugar que o dinheiro ocupa em nossa cultura.  No momento em que o mundo inteiro está se confrontando com as consequências (econômicas, políticas, sociais e ambientais) de um modelo cuja principal motivação é o dinheiro, vale a pena refletir sobre nossa relação com esse deus e como ele orienta nossas escolhas.
Sandra Felicidade
A força do dinheiro
Qual é exatamente, e como se originou, a nossa atitude ante o dinheiro? Até que ponto nosso senso de identidade se prende às nossas emoções com relação ao dinheiro? Essas perguntas nos convidam a descobrir em que grau as atitudes ante o dinheiro nos foram insufladas na primeira infância, quando nossas mais intensas emoções já se alojavam no lugar que iriam ocupar pelo resto da vida.
“A nação mais rica e poderosa da Terra”
O que é a verdadeira riqueza? Ter aquilo de desejamos... ou aquilo que temos necessidade? Será viável uma civilização em que os bens materiais não sejam prioritários nos corações e mentes das pessoas? O ponto crucial da questão é que a cultura, como o indivíduo, faz escolhas fundamentais quanto ao que é importante ou secundário. O que chamamos de “riqueza” é determinado unicamente por essas escolhas fundamentais, feitas em geral à superfície de nossa consciência? Ou temos o poder – talvez o dever – de definir para nós mesmos o que a riqueza de fato significa?
A nova pobreza
Falando em escolhas secretas, parece que a certa altura da era moderna nossa sociedade preferiu coisas a “tempo” e objetos materiais a “lazer”, daí a situação atual, em que possuímos muitas “quinquilharias”, mas pouquíssimo tempo. De que modo nos relacionamos com o tempo em nossas vidas e em que grau o tempo determina nossa atitude para com o dinheiro? Poderemos redefinir a riqueza em termos de tempo? Existem qualidades e tipos de tempo ou este não passa de um elemento quantitativo? Será verdade que a nossa é uma sociedade “sem tempo”? 
Como levar o dinheiro a sério
Qual é a diferença entre levar o dinheiro a sério e ficar obcecado por ele? Segundo o sociólogo Georg Simmel, nossa obsessão com o dinheiro deve-se à influência da tecnologia na vida moderna. Tanto a tecnologia quanto o dinheiro são, essencialmente, instrumentos ou meios para um fim. Nós, como indivíduos e como cultura, destinamos uma quantidade desproporcional de energia aos instrumentos e esquecemos (ou negligenciamos) os fins para os quais eles foram originalmente concebidos?
Deus e César
A nosso ver, o que o dinheiro pode fazer por nós? Falamos dele como se fosse uma espécie de deus de nossa cultura. O que isso significa? Que haverá de concreto e de ilusório no poder que atribuímos à posse do dinheiro? É possível investigar em que medida o dinheiro realmente colabora para nos dar, não apenas alguma segurança, mas também amor, amizade e conhecimento?

O que o dinheiro pode e não pode comprar

Considere isto: há poucos problemas na vida que não podem ser resolvidos com uma quantia suficiente de dinheiro. Será verdade? Que tipo de solução o dinheiro proporciona aos problemas da vida? Em que circunstâncias tentar resolver um problema pessoal com dinheiro mascara as necessidades a serem diretamente enfrentadas? Quando é que o emprego do dinheiro reflete uma compreensão realista das forças envolvidas em dada situação e daquilo que de fato é necessário?

Por que o dinheiro parece tão real?

Por que, para muitos de nós, o "balanço financeiro" parece o fator mais real e contundente da vida? Será em virtude da intensidade de nossas emoções em relação ao dinheiro? É possível "ir além" do dinheiro e, graças a sentimentos ainda mais intensos, alcançar aspectos da vida alheios ao fator monetário? Mas que aspectos são esses? Tudo no mundo exterior já não está permeado por razões de lucros e custos?

Coisas

Em que medida a nossa cultura identifica felicidade com posse material? Quais são, realmente, as nossas experiências a esse respeito? Que tipo de felicidade ou bem-estar auferimos de fato da posse material, seja ela qual for? Já se disse que a principal obsessão da humanidade em nossa época é a ânsia por conforto no mundo. Qual o alcance desse diagnóstico?

“O dinheiro e o significado da vida”
O sociólogo Max Weber empregava a expressão “ascetismo mundano” para caracterizar a devoção e a autonegação com que as pessoas de hoje perseguem a riqueza. Até que ponto transformamos o sucesso mundano numa justificativa de nossas vidas? A crença nessa equação estará desmoronando em nossa cultura?

*Guia do usuário, com ideias para reflexão e debate - extraído do livro: O Dinheiro e o Significado da Vida – Jacob Needleman. Editora Cultrix
Sobre o autor: Jacob Needleman é professor de Filosofia na Universidade Estadual de San Francisco e autor de diversos livros, entre os quais The New Religions. O Dinheiro e o Significado da Vida teve destaque especial na NBC News, na CNN e no programa “A World of Ideas”.
Vídeo: Paulinho da Viola interpreta “Sinal Fechado” (Paulinho da Viola)  – Acústico MTV. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=IEUPH1A7YkM. Acesso em 16/10/11.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Relações (mais) Humanas no Trabalho

"No mundo do trabalho, corre-se o risco da fascinação por uma pseudo-realidade. Criamos tamanha cegueira interna que, ao final, perdemos a conexão com nossas próprias fontes de felicidade e evolução."
Herbert Steinberg*

O trabalho cumpre uma função importante e complexa na vida das pessoas. Além de suprir nossas necessidades mais elementares, ligadas à sobrevivência – outros aspectos mais sutis e igualmente importantes estão em jogo. Independente do tipo de organização na qual ocorra, ele é feito em coletividade, em contextos que envolvem a relação com o outro. A própria realização do trabalho depende dessa interação. Num certo sentido, ele é um importante mediador das relações que se estabelecem entre as pessoas.
Ao mesmo tempo, vivemos num paradigma que impõe às pessoas um nível crescente de dedicação à atividade profissional, muitas vezes em detrimento dos outros aspectos da vida. A carreira acaba sendo a principal referência na vida de uma pessoa, quando não é o único elemento gerador de identidade. Isso torna a convivência no trabalho mais intensa e, portanto, mais propensa ao desgaste e a converter-se em fator de estresse.
Para ampliar a participação em mercados cada vez mais competitivos e agressivos, muitas organizações fomentam uma postura igualmente competitiva e agressiva entre seus colaboradores - a fim de que gerem resultados irreais e insustentáveis. Com isso, privilegiam profissionais cujo perfil evidencie a disposição de dar prioridade absoluta à carreira e ao cumprimento de metas corporativas e igual disposição para abdicar da própria subjetividade e do reconhecimento da subjetividade do outro.
Nesse cenário, vemos profissionais altamente qualificados, mas que se deparam com grandes bloqueios quando lidam com a dimensão mais valiosa do trabalho: a relação com o outro. Muitos profissionais se limitam a desenvolver competências pessoais que gerem resultados para a organização e para a própria carrreira. O desenvolvimento de aspectos humanos só é considerado relevante quando se trata de alguma característica momentaneamente valorizada na cultura corporativa, como atributo estratégico para as metas da organização ou do mercado.
As pessoas exigem de si mesmas e dos colegas níveis cada vez mais elevados de desempenho - e desconsideram perigosamente o outro, como ser humano, em todas as dimensões que o integram. Quem faz isso com o outro, fez antes consigo mesmo. Num contexto que favorece esse tipo de postura, vemos a crescente deterioração das relações interpessoais com efeitos visíveis na qualidade do ambiente de trabalho.
Precisamos começar a criar uma massa crítica que questione esse modelo. Nosso contexto profissional pode nos trazer grandes oportunidades de desenvolvimento como seres humanos.  A convivência diária com uma grande diversidade de pessoas é uma rica escola de relações humanas, na qual exercitamos a comunicação, a cooperação, a tolerância, a empatia, a ética e tantos outros valores essenciais.

Os bloqueios que encontramos pelo caminho nos convidam a ativar nossos recursos e valores mais profundos. Podemos ingressar num nível que favorece interações conscientes e transformadoras. Está aí a nossa oportunidade de saltar para um outro patamar no qual possamos redescobrir o propósito do trabalho.

Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga - CRP 08/12815. Consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.
Contatos: (41) 3093-9989 / (41)  9841-4078
sandra.happiness@terra.com.br / http://www.sandrafelicidade.com.br / http://br.linkedin.com/in/sandrafelicidade

Foto: Relações em Jogo®
* Na apresentação da edição brasileira do livro "A escola dos deuses" - Stefano Elio D'Anna


segunda-feira, 11 de julho de 2011

As lições do fracasso


Quando não tiver mais nada
nem chão nem escada
escudo ou espada
o seu coração acordará.
Nando Reis / Arnaldo Antunes

Boa parte dos livros e palestras na área de desenvolvimento pessoal é destinada a temas relacionados ao sucesso. Embora digam que sucesso é algo subjetivo – que diz respeito a conquistar aquilo que tem significado para cada um – todos ensinam a ter sucesso nas finanças, na carreira, na vida social, amorosa e sexual. O discurso reafirma muito claramente quais são os indicadores de sucesso - não há nada de tão subjetivo assim: você tem ou não tem. O sucesso é sempre definido segundo parâmetros muito objetivos e socialmente verificáveis. Nessa ótica, sucesso é sinônimo de desenvolvimento pessoal.
Raramente o fracasso é apontado como uma experiência importante para o nosso desenvolvimento pessoal. Quando ocorre, deve ser superado e esquecido o mais rápido possível. E, de preferência, escondido - para não arranhar a imagem que sustentamos socialmente. Não somos muito encorajados a incluí-lo no currículo. O sucesso é público, o fracasso é privado.
No meio de toda essa apologia ao sucesso, foi exatamente o livro sobre a experiência de um homem que foi destituído de todos os seus símbolos de sucesso, que me chamou a atenção na livraria. Michael Gates Gill, um americano que teve um inquestionável sucesso em todos os quesitos mencionados acima, conta em seu livro “Como a Starbucks salvou minha vida” – a oportunidade que teve de recriar e resignificar a própria vida, após sofrer grandes e irremediáveis perdas.
Não é um livro piegas do tipo “mais vale ser pobre e feliz do que...”. É o relato de alguém que redefiniu “sucesso” para si mesmo, a partir de pequenas conquistas do cotidiano – imperceptíveis para os outros – mas intimamente muito significativas. Exatamente aí reside a grande diferença daquele sucesso vendido nas palestras e livros – que é o sucesso observável pelos outros. Da necessidade desse tipo de sucesso, Michael se libertou. Não porque atingiu o nirvana, mas porque a vida que ele havia construído entrou em colapso. Ele fracassou. Mas foi a partir daí que ele começou a viver de forma mais significativa – o que não deixa de ser uma espécie de iluminação.

Fiquei totalmente envolvida pela leitura e me lembrei da palestra com o filósofo Zeljko Loparic: “O medo do fracasso”. Ele expõe o pavor que as pessoas têm de fracassar, num mundo que exige padrões cada vez mais elevados de desempenho. Loparic levanta um ponto muito importante, que a experiência de Michael confirma: existem aspectos fundamentais em nós que só se desenvolverão se tivermos a experiência do fracasso.


Penso, imediatamente, em três oportunidades que essa experiência proporciona:
Ficar livre das expectativas alheias
A primeira delas é a oportunidade de nos libertarmos das expectativas alheias e redefinirmos as coisas a partir de uma referência interna. Quem está preso àquela obrigação de sucesso – no que se convencionou chamar de sucesso – é, necessariamente, escravo das expectativas alheias, já que são os outros que definirão se você tem sucesso ou não. Quem fracassa deixa de ser interessante aos olhos dos outros – portanto, não precisa atender às expectativas de mais ninguém. Quando você percebe que sobreviveu à perda desse reconhecimento externo – que é muito fugaz – ganha uma perspectiva muito mais ampla da situação.
Adotar uma nova perspectiva
A mudança de perspectiva é a segunda coisa que se ganha nesse processo. Quando você só teve êxito, adotando um determinado ponto de vista – é muito improvável que seja estimulado a explorar novas formas de pensar, perceber e agir. Enquanto as coisas estão “funcionando” e atendendo nossas necessidades e interesses, estamos tendo sucesso e as coisas estão confortáveis. Não há porque mudar. Somos “forçados” a uma mudança de perspectiva exatamente quando as coisas não estiverem mais funcionando para nós. Precisamos sair da nossa zona de conforto – já que ela não oferece mais segurança ou porque os nossos referenciais começaram a mudar.
Desenvolver a resiliência
A resiliência é outro atributo importante que desenvolvemos ou ativamos internamente, quando passamos por uma grande perda. É a capacidade de mobilizar recursos físicos, emocionais, mentais e espirituais para restaurar a nossa integridade como ser, após sofrer um grande abalo. Quando você percebe que sobreviveu – apesar da pequena morte social gerada pelo fracasso – e passou a enxergar novos horizontes, é capaz de mobilizar recursos internos sempre que se deparar com as adversidades e se torna muito menos vulnerável diante delas.
Dessa perspectiva, o temido fracasso pode ter aspectos muito transformadores. Assim como Michael redefiniu sucesso, nós também podemos redefinir fracasso. Esses dois conceitos não precisam ser assim tão polarizados. Nós vivemos numa sociedade tão competitiva e individualista, em grande parte, por ter esses conceitos como absolutos. Essa é, possivelmente, uma das principais causas de infelicidade e solidão no mundo atual. Quando o único jogo que conhecemos e jogamos é o do “ganhar ou perder”, ter sucesso é ganhar para garantir nosso lugar no jogo, eliminando o outro; fracassar é perder e ser tirado definitivamente do jogo.
Mas quem vive a vida como um jogo infinito, sabe que nunca vai ser eliminado do jogo e não tem necessidade de eliminar ninguém. Sabe que o outro é fundamental para que o jogo continue – e acolhe tanto o sucesso quanto o fracasso, como formas de se desenvolver como pessoa.
Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga - CRP 08/12815. Consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.
Contatos: (41) 3093-9989 / (41)  9841-4078

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sábado, 18 de junho de 2011

O Jogo da Transformação

 "À medida que você apresenta uma nova pessoa ao mundo, 
oportunidades completamente novas surgem em seu caminho." 
Candice Carpenter 

O Jogo da Transformação é um instrumento criativo e refinado que reproduz a essência do processo de mudança. O jogo traz clareza com relação aos passos para transformações que se fazem necessárias. Com essa perspectiva, é possível promover mudanças e fazer escolhas de forma consciente - em diferentes áreas da vida.

Cada participante é encorajado a reconhecer e ativar seus recursos internos para superar desafios e atingir objetivos, podendo assim, assumir a responsabilidade pelo próprio desenvolvimento pessoal e profissional.





Objetivos

O jogo é um recurso versátil que pode ser aplicado em diferentes contextos e vivenciado com uma grande variedade de propósitos (individuais e coletivos):

● Lidar com momentos de transição pessoal ou profissional.
● Desenvolver habilidades de liderança.
● Ativar as habilidades necessárias para lidar com novos cenários.
● Exercitar a comunicação consciente.
● Ampliar a percepção com relação a uma situação desafiadora.
● Ativar recursos para superar bloqueios e padrões que geram estresse.
● Estimular a criatividade.

Origem
O Jogo da Transformação foi criado na década de 70, na Fundação Findhorn - Escócia. Considerada pelas Nações Unidas, modelo de desenvolvimento sustentável - atua nas áreas de economia, meio ambiente, política, educação, desenvolvimento pessoal e relações humanas. Findhorn recebe anualmente, milhares de pessoas do mundo inteiro para participar de suas atividades, sendo que o Jogo da Transformação - em suas diferentes versões - é uma das principais vivências lá realizadas.

Possibilidades

Atendimento individual (coaching intensivo) - Identificação dos passos e das competências necessárias para atingir objetivos pessoais e profissionais.

Grupo aberto – Realizado com tema aberto (cada participante define seu propósito) ou com um tema de interesse comum. Nesta modalidade, o número máximo de participantes é de 6 pessoas. Workshops programados mensalmente. Verificar próximas datas.


Grupo fechado – Realizado em organizações, grupos de trabalho, grupos terapêuticos, grupos de estudos, famílias, casais etc. Sob consulta. 

Facilitadora: Sandra Felicidade – Consultora e facilitadora de processos de mudança. Formada em Psicologia pela PUPR. Trabalha há 25 anos com desenvolvimento humano em organizações de diferentes setores, com os temas: relações humanas no trabalho, criatividade e inovação, processos de mudança, pensamento sistêmico e inteligência coletiva. Autora do game Relações em Jogo® e de jogos cooperativos de tabuleiro customizados. Facilitadora do Jogo da Transformação® – versão avançada - credenciada pela InnerLinks Associates. Entre os diversos cursos de abordagem sistêmica e holística, embasam seu trabalho a formação em Teoria U (MIT), em Economia Solidária e Desenvolvimento Territorial (PUCPR) e em Biopsicologia (Visão Futuro). Blogueira, autora do blog HappiNewss. Palestrante e facilitadora em eventos TEDx e Amcham. Autora de artigos e coautora de livros nas áreas de psicologia e sociologia. Foi colaboradora do NEPED/Sociologia/UFSCar - na área de desastres. Trabalhou durante 10 anos na área de marketing corporativo da 3M do Brasil.
 
Contatos: ((41) 9699-2665 / sfelicidade.psi@gmail.com http://br.linkedin.com/in/sandrafelicidade / 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Uma jornada de transformação ao redor do tabuleiro

 
Visão Sistêmica e Relações Humanas no Trabalho
 "O atual tipo de organização está em vigor há mais de cem anos, com alguns pequenos retoques. E os pequenos retoques agora já não bastam."
Domenico De Masi

Uma época de desafios complexos exige a capacidade de pensar e agir de forma sistêmica. Quando estamos buscando soluções, não podemos perder de vista todo o contexto em que a situação se apresenta. Assim como num jogo de tabuleiro, qualquer escolha ou movimento que façamos tem desdobramentos que afetam o todo.
 
Tive esse insight há vinte anos, quando redescobri a magia dos jogos de tabuleiro. Os jogos podem ser instrumentos de aprendizado e transformação, principalmente em contextos que envolvem pessoas interessadas em construir caminhos para um novo modelo de organização, de sociedade e de relações humanas.
 

Sentar ao redor de um tabuleiro ativa forças grupais tão primitivas quanto sentar ao redor de uma fogueira. Começa pelo simples “sentar em círculo”, que significa “estamos em posição de igualdade”. Somos convocados de uma forma meio ancestral e isso não é brincadeira, é muito sério. O círculo ativa imediatamente o sentimento de pertencimento. Ele é inclusivo e igualitário.

A origem dos jogos de tabuleiro é bastante incerta, mas há registros de jogos em diferentes civilizações. O escritor Nigel Pennick pesquisou o paralelismo entre os jogos de tabuleiro e o funcionamento das cidades, em diferentes culturas. Os jogos sempre foram usados como representação da organização geográfica e social de um povo.

O que faz do jogo de tabuleiro um instrumento tão rico para o trabalho com pessoas? Primeiramente, o tabuleiro é colocado como um elemento central, para onde as atenções convergem. Ele permite ver o cenário completo. Todos os elementos estão ali representados e é possível entender como eles interagem. Ou seja, ele dá uma visão sistêmica. É possível ver os desafios do caminho e os recursos disponíveis para superá-los.  A trilha – elemento essencial no tabuleiro – é uma metáfora do caminho a percorrer. Ela simboliza a jornada para atingir um determinado propósito.

O caráter lúdico da experiência permite abordar temas desafiadores e delicados de uma forma confortável, preservando os participantes e evitando confrontos improdutivos e desgastantes. As resistências do grupo diminuem muito quando se tem um elemento lúdico como mediador da vivência. O ganho em termos de qualidade na comunicação é imenso. O jogo é um simulador que permite aos participantes o exercício de novas possibilidades, num contexto protegido. Não há risco no jogo. Ele é muito efetivo no desenvolvimento de habilidades duradouras que resultam em transformações significativas na comunicação e nas relações interpessoais no trabalho. Isso porque ele atua muito profundamente na mudança de percepção das pessoas.

A liderança existe, mas não está restrita a uma pessoa. A liderança é um princípio, não uma pessoa - é uma liderança circular. Dessa forma, não há razão para comparar desempenhos, na disputa pelo escasso posto de líder. A competição simplesmente não tem sentido nesse contexto. A liderança não é troféu. É um equívoco pensar que a única coisa que motiva as pessoas é a competição e algum tipo de troféu. As pessoas são mais interessantes do que isso. Então, o que move as pessoas quando elas deixam de se preocupar com as comparações e disputas por conquistas individuais e de curto prazo? Outras motivações mais sofisticadas começam a surgir. Curiosamente, todos começam a dar o seu melhor. As pessoas começam a acionar outros recursos e saltam para outro patamar, como grupo.

Utilizar jogos de tabuleiro nas empresas não é uma coisa nova, mas é muito ousado. Paradoxalmente, é ousado exatamente pela simplicidade. Numa época de jogos eletrônicos e de tecnologias digitais, a proposta de trabalhar com um instrumento aparentemente “rudimentar” como um jogo de tabuleiro, parece mesmo uma brincadeira.

Você cria um contexto muito simples com os recursos essenciais. Dessa forma, o foco é colocado nas pessoas e nas relações. Liberadas das preocupações com disputas, as pessoas ingressam num outro nível de comunicação e criatividade. Elas têm a oportunidade de refletir sobre desafios comuns. Podem compartilhar experiências e percepções. Criam um espaço no qual todas são ouvidas. Caminham pelo tabuleiro juntas e percebem que podem construir e trilhar uma verdadeira jornada de transformação. Definitivamente, isso é muito ousado.

Os jogos são aplicáveis em diferentes contextos, com temas personalizados e diferentes níveis de complexidade e profundidade, dependendo do perfil do grupo. Informações sobre workshops e coaching com os jogos: sandra.happiness@terra.com.br ou (19) 98210-2330


Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga; atua como consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.
Foto: Jogo desenvolvido para a 3M do Brasil. Propósito: Visão sistêmica, capacidade crítica e criativa, inteligência coletiva.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Novos Paradigmas: Empatia e Visão Sistêmica – o caminho para a inteligência coletiva

"Se quiser ir rápido, vá sozinho;
se quiser ir longe, vá em grupo."
Provérbio africano

Recentemente, participei de um curso sobre empatia e visão sistêmica com Susan Andrews e Linda Booth Sweeney. Na verdade, foi muito mais do que um curso. Foi uma daquelas experiências que nos fazem cruzar novas fronteiras. A gente passa a perceber o que não percebia antes. É como nos maravilhosos desenhos de Escher: quando você consegue enxergar o que estava oculto, não consegue mais deixar de enxergar. É um novo nível de consciência e de percepção. Isoladamente, visão sistêmica e empatia são conceitos conhecidos. Mas uma nova fronteira se abre quando conseguimos perceber a conexão entre eles: a inteligência coletiva.

 Foto: Grupo de teatro do Parque Ecológico Visão Futuro. Conto Sufi: O viajante (sobre empatia e a capacidade de perceber as conexões...)
Somos “programados” para sermos empáticos e, com isso, ficarmos sensíveis às conexões – que são os pontos de ativação da inteligência coletiva. Mas, em algum ponto do caminho, vamos perdendo essa habilidade humana tão importante. Passamos a acreditar na ilusão de que somos separados uns dos outros, adotamos uma visão fragmentada da vida, criamos territórios e passamos a lutar por eles. A competição e o individualismo estão na origem dos principais problemas da atualidade. Perdemos a percepção da interdependência e, ironicamente, criamos problemas com um grau de complexidade que individualmente não conseguimos solucionar.

O que isso tem a ver com o ambiente organizacional? É um ambiente onde comportamentos territoriais são fortemente encorajados. Há uma ideia equivocada de que recompensas por performances individuais sejam motivadoras, estimulem a criatividade e façam cada um dar o seu melhor. O efeito é exatamente o oposto. A recompensa está baseada na ideia de escassez, já que só existe prêmio - seja de que natureza for - para o “melhor”. A primeira coisa que a recompensa faz é tirar o significado do trabalho. O profissional passa a trabalhar pelo prêmio, não pelo valor daquilo que está sendo realizado. A segunda coisa é tornar o ambiente hostil – sem espaço para a empatia e para a espontaneidade: “Como é possível ter empatia na relação com alguém que disputa o prêmio comigo?” A terceira consequência desse modelo é a visão fragmentada e o comportamento territorial. É o famoso “salve-se quem puder”! Adeus visão sistêmica... Finalmente, esse cenário é completamente desfavorável ao florescimento da inteligência coletiva – tão necessária em tempos de desafios cada vez mais complexos, inclusive nas organizações.

A boa notícia é que esse mesmo cenário tem um potencial extraordinário de transformação. As interações humanas – formais e informais, reais e virtuais - são oportunidades de conectar ideias, ativar a inteligência coletiva e estimular a criatividade. Mas antes precisamos resgatar a empatia como requisito para o desenvolvimento da visão sistêmica. Ambientes que favorecem as interações e a espontaneidade contribuem para que as pessoas preservem a empatia, desenvolvam a visão sistêmica e tenham os insights geradores de inovação. O conhecimento circula e tem efeito multiplicador - não está restrito a um território, nem submetido à lei da escassez.

Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga; atua como consultora e psicoterapeuta de base sistêmica e analítica. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.

domingo, 15 de maio de 2011

Novos Paradigmas: Simplicidade e Felicidade

Olhe bem nos meus olhos
Olhe bem pra você
A quem é que a gente engana com a nossa loucura
De certo que a gente perdeu a noção do limite
Oswaldo Montenegro

O físico Fritjof Capra diz que, entre todos os sistemas vivos, o único que tem a ilusão do crescimento ilimitado é o câncer; e que nem ele tem êxito. Não é um sistema inteligente, porque mesmo quando consegue atingir seu propósito – driblar o sistema imunológico, espalhar-se pelo organismo que o hospeda e dele se alimentar - está caminhando para a própria morte. Ele esgota a vitalidade do organismo que o alimenta e, claro, morrerá também. Seu objetivo é crescer. Para onde? Para quê? Nem ele sabe, já que o câncer é decorrente de uma mutação no núcleo da célula, que a fez perder a informação da sua função original.
É uma ótima analogia para a lógica de mercado que rege diferentes setores da atividade humana - incluindo a gestão das organizações, a ocupação dos espaços, a exploração dos recursos naturais, as relações interpessoais, os valores e hábitos de consumo da sociedade atual – tudo isso com altíssimos níveis de impacto ambiental e humano. Mesmo com todos os sinais de “metástases” – que se expressam em nossa sociedade através de um estilo de vida vazio de significado – "produzir e consumir" continua sendo o nosso mantra e é sinal de “evolução”. O importante é crescer. Para onde e para quê? Parece que já não sabemos mais.

As evidências de colapso ambiental, social e econômico apontam a urgência em adotarmos novas abordagens de vida, fundamentadas em um novo paradigma. Nos anos 80, Duane Elgin foi considerado um visionário ao iniciar o diálogo em torno da chamada “simplicidade voluntária” – que é o estilo de vida exteriormente simples, mas interiormente rico e criativo. A opção por esse estilo de vida expressava uma postura consciente frente aos valores massificantes da sociedade industrial. Para quem pensa que simplicidade voluntária é papo de bicho grilo dos anos 80, acertou. Isso é coisa do passado, de quando ainda tínhamos tempo para decidir. Adotar uma simplicidade consciente não é mais uma questão de vontade – é uma urgente necessidade. Com o colapso dos grandes centros e a exaustão do estilo de vida baseado no consumo, já estamos em outro estágio em termos de “liberdade”.

Viver com simplicidade não é o mesmo que viver com precariedade. Ao contrário, a simplicidade cria oportunidade para que a riqueza encontre outras formas de expressão – capazes de gerar felicidade genuína e duradoura. O físico e ex-monge budista Alan Wallace diz que podemos buscar dois tipos de felicidade: a “felicidade do caçador” – que é baseada na escassez, na disputa, no domínio e na atitude predatória - é uma felicidade passageira; e a “felicidade do agricultor” – que é baseada na capacidade de gerar, cuidar, multiplicar e compartilhar – esta é a felicidade duradoura.

Abraços fraternos,
Sandra Felicidade
Consultoria, coaching e psicoterapia

Ilustração: Mafalda - Quino

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Os dias eram assim


E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim


Aos Nossos Filhos - Ivan Lins/Vitor Martins

O período da ditadura foi marcado pela proibição e pelo medo. Nossas liberdades mais essenciais foram tiradas. As pessoas não podiam se expressar e eram cerceadas de inúmeras formas. Os dias eram assim. Ainda bem que estamos livres da ditadura… militar. Nós evoluímos muito de lá pra cá e ficamos muito bons nesse negócio. Temos formas mais sofisticadas e sutis de controle social. Hoje vivemos sob a ditadura econômica, com seus vários indicadores: a produtividade, o crescimento, o sucesso, a carreira, a competitividade, o consumo, a beleza padronizada. Essa forma de controle social é acrescida de um elemento poderoso: o consentimento interno, fruto de uma espécie de hipnose coletiva.

O filósofo Zeljko Loparic diz que hoje vivemos o período marcado pela proibição do descanso e pelo medo do fracasso. Não importa quanto você produza, nunca será o suficiente. Não descanse. Não vá para casa. Não desligue o notebook nem o iPhone. E, pelo amor de Deus, não tire férias. Pode ser mortal, pelo menos para sua carreira. O concorrente não dorme; por que você dormiria? Além do mais, o que você teria de tão mais interessante para fazer? Ler um livro? Encontrar seus amigos? Namorar? Ficar de papo pro ar? Contemplar a vida? Conhecer coisas novas? Curtir os pimpolhos em casa? Pra quê!?

Alguns especialistas dizem que se tiver “qualidade” naqueles dez minutinhos que você dedica aos pimpolhos, está tudo bem. Eles já ficam bem felizes e o vínculo está garantido. Tenho uma má notícia.  Vínculos são construídos com atenção, convivência, envolvimento e cumplicidade – o que só é possível com uma considerável “quantidade” de presença. A boa notícia é que eles vão crescer mesmo assim. E quando eles forem adultos, espere os mesmos dez minutinhos de visita semanal, ok? Mas vai ser com muita qualidade, fique tranquilo.

Cada vez mais pessoas começam sair da hipnose e assumem a responsabilidade integral pela própria vida – o que inclui o trabalho. Muitas pessoas decidem sair de trabalhos incompatíveis com seus valores e anseios mais verdadeiros. Elas, de fato, decidem… onde, com quem, para quem e pelo quê trabalhar. Aliás, em última instância, trabalham para si mesmas e pelos seus sonhos. Li uma entrevista com escritor Paulo Coelho, em que a jornalista faz a singela pergunta: “O que o senhor faz no seu tempo livre?”. Ele responde: “Todo o meu tempo é livre!”. Fiquei aqui pensando na cara da jornalista… É isso mesmo! Quem trabalha pelo sonho tem todo o seu tempo livre. Isso é utopia?

Ainda que o estilo de vida do Paulo Coelho - sonho de consumo de dez entre dez terráqueos – seja inatingível para a maioria dos mortais, alinhar o trabalho aos anseios mais profundos e ser dono do próprio tempo é uma escolha que está disponível para todos. Mas é uma decisão muito complexa, que exige autoconhecimento, coerência e uma tremenda dose de coragem. Envolve sair da hipnose, da zona de conforto e lembrar: “qual era mesmo o sonho?" Além do mais, quem deseja fazer mudanças profundas no trabalho, provavelmente terá que reformular outros aspectos da vida. Pode ter que repensar os hábitos de consumo, aceitar a inevitável mudança no círculo social, ficar sem aquele “sobrenome” que confere tanta diferenciação e identidade. Sejamos realistas, o êxito de uma mudança dessas proporções dependerá muito do apoio familiar. É um trabalho de equipe.

Permanecer num contexto profissional que impõe um ritmo incompatível com a vida é uma grande violência contra si mesmo. Contra o sonho. Tomar consciência disso é o primeiro passo. Esta é uma revolução individual e silenciosa que pode mudar o conceito de trabalho. Quando vemos todos os aspectos da vida em perspectiva, o culto à carreira não faz o menor sentido. Para quem ousa dar o salto, as recompensas são grandes. Ser o dono do próprio tempo é uma delas. O universo realmente conspira a favor daqueles que levantam da cama para realizar o sonho.

Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga; atua como consultora e psicoterapeuta de base sistêmica e analítica. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.

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sandra.happiness@terra.com.br / http://www.sandrafelicidade.com.br / http://br.linkedin.com/in/sandrafelicidade