sexta-feira, 15 de abril de 2011

A felicidade nos lugares mais improváveis

É comum que as pessoas me perguntem se "Felicidade" é nome ou sobrenome. Explico brevemente que é nome, e que "Felicidade" era o nome da minha avó paterna. Meu pai, para homenagear sua mãe, colocou o "Felicidade" como segundo nome nas filhas. Não conheci minha avó e sei pouco sobre ela. Sei que foi uma nordestina que criou os filhos sozinha, no sertão de Pernambuco. Ela deve ter sido uma pessoa especial, porque meu pai sempre falou dela com orgulho. Mas eu imagino que mais especiais ainda devem ter sido seus pais, pois mesmo vivendo na dura realidade do sertão nordestino, tiveram inspiração para chamar a filha de Felicidade.


Participei de um seminário com o Lama Padma Santem, cujo tema era Felicidade. Ele falou sobre a nossa tendência de buscar uma explicação para o sentimento de felicidade, sempre como decorrente de fatores externos. Os cientistas sociais vinculam esse sentimento a fatores socioambientais favoráveis. Nas neurociências, as explicações vêm de fatores genéticos que predispõem à felicidade. Sorte de quem herdou o gene da felicidade... A ciência está bastante empenhada em explicar a origem da felicidade - e patentear a fórmula, claro. O Lama brincou que se pessoas genuinamente felizes são encontradas no interior de uma humilde casinha, sentadas ao redor de uma mesa, tendo somente um bule de café e um bolo de fubá - os cientistas imediatamente vão até lá e colhem uma amostra do bolo, para identificar que componente do fubá é o responsável pela felicidade.

Li o resultado de um estudo que avaliou a "duração" do sentimento de felicidade gerado por diferentes tipos de conquista. Aquela promoção no trabalho que você tanto espera: seis meses de felicidade garantida ou seu cargo anterior de volta. Depois disso, somente outra promoção é capaz de renovar o sentimento de felicidade. O carrão dos seus sonhos. Sabe aquele que te permite olhar de cima para o camarada do carro ao lado? Então, esse carrão garante dois meses de felicidade. Pena que as prestações do carrão durem bem mais do que isso.


Felicidade não é a satisfação ininterrupta das nossas necessidades e desejos; muito menos a imersão permanente num mundo de sensações prazerosas. Aliás, ninguém aguentaria isso. Felicidade tampouco é ausência de problemas ou restrições materiais. Todos nós conhecemos pessoas que jamais passaram por qualquer tipo de restrição material e que, mesmo assim, são infelizes. O que fazer então se os fatores externos não asseguram felicidade duradoura e, pior ainda, se você não teve a sorte de nascer com o gene "virado pra lua"? Eu arrisco um palpite. Existem características que a gente facilmente identifica nas pessoas felizes e que podem ser desenvolvidas.


Primeiramente, esse sentimento tão subjetivo e, ao mesmo tempo, tão fácil de identificar está ligado a uma inabalável consciência de si. Independente das circunstâncias externas, saber quem você é. Se todos os seus rótulos forem tirados (um dia serão...), ter muito claro quem é você, e ter um profundo respeito por isso.


Em seguida, ter consciência do outro e estabelecer relações pessoais e profissionais que não estejam baseadas em conveniências, mas no respeito e interesse pelo outro, também desvinculado de suas circunstâncias.


Finalmente, pessoas felizes revelam uma postura do tipo "não vim ao mundo a passeio!". São pessoas que têm um propósito claro. São movidas por um sentido de missão. Algumas ficam até bem famosas, como a Madre Tereza de Calcutá e o Dalai Lama. Mas mesmo que seu currículo humanitário não seja suficiente para uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz, não desanime. Já é muito gratificante saber que a nossa existência pode contribuir para que o mundo seja um lugar melhor, começando pela nossa família, pelo nosso círculo de amigos ou pelo nosso ambiente de trabalho.

O fato é que a felicidade é encontrada nos lugares mais improváveis, justamente porque ela não está vinculada às circunstâncias externas e passageiras. Pode ser encontrada até mesmo naquela casinha do bolo de fubá ou no sertão nordestino da minha avó.

Texto: Sandra Felicidade - psicóloga. Atua como consultora e psicoterapeuta de base sistêmica e analítica. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.

Contatos:
sandra.happiness@terra.com.br / http://www.sandrafelicidade.com.br / http://br.linkedin.com/in/sandrafelicidade

Foto: Bolo de fubá com café na casa da amiga Cris; um momento de felicidade.J

5 comentários:

  1. ernesto raizer neto18 de abril de 2011 18:06

    Atualmente estou pensando em voltar ao mundo de onde e como nasci, onde apenas os cinco sentidos e as necessidades básicas são importantes. Preciso apenas descobrir qual a dose necessária de stress que o ser humano precisa para não tornar a vida enfadonha, já que não tenho o stress de meus antepassados, correr de porco do mato, de jaguatirica, de bugios, tirar leite das vacas todo dia, plantar para o sustento. etc. É nesta vida que irei fixar meu diploma, numa árvore, embaixo de um monte de passarinhos e meu novo doutorado será de entender este canto e esta paz.

    ResponderExcluir
  2. Cris, essa coisa da história do nosso nome, e o que ele imprime em cada um de nós, é assunto para uma loooonga conversa, com café e bolo de fubá.
    Beijo

    ResponderExcluir
  3. Oi, Ernesto!

    Será que o nosso próximo estágio evolutivo não é exatamente sair do modelo do estresse? Ainda vivemos com a idéia de que a vida é luta. Que é a competição que nos motiva. Somos movidos por conquistas de valor muito questionável: o cargo mais alto, a casa maior, o carro mais potente e luxuoso. Assim como não precisamos mais correr de porco do mato, acho que também não precisamos de um monte de bugigangas (incluindo diplomas e títulos)que são a nossa principal fonte de estresse. Talvez a evolução esteja em encontrar motivações mais sofisticadas, que não envolvam o estresse. É meu palpite...
    Grata pelo seu comentário!
    Abraços,

    ResponderExcluir
  4. Oi Sandra! Trabalho no CRC da 3M, meu supervisor encaminhou um email com o link do seu blog... estou encantada com a riqueza de conteúdo que encontrei aqui e ansiosa para o workshop que teremos em breve. Parabéns pelo trabalho... visitarei o blog sempre. Abraços, Ana

    ResponderExcluir