sábado, 16 de abril de 2011

Não precisamos mais dos seus serviços

Qual é o preço que se paga por colocar a carreira no centro da vida? O filme "Amor sem escalas" explora os encantos e desencantos do mundo do trabalho e aborda essa questão. Ryan Bingham (George Clooney) é um executivo de uma grande consultoria de recursos humanos. Seu trabalho consiste em assessorar grandes corporações na tarefa de demitir funcionários (os tais recursos humanos) – “missão” que ele cumpre com eficácia e satisfação já que envolve uma rotina com viagens, hotéis, restaurantes, aeroportos, milhas… Enfim, o kit glamour completo.

O filme mostra o fascínio do mundo corporativo, o poder que ele empresta enquanto fazemos parte dele e a fragilidade a que estamos sujeitos quando a empresa decide: “Não precisamos mais dos seus serviços”. Cada personagem retrata um estágio no ciclo da vida corporativa e, para quem se interessa em assistir o filme com um olhar mais cuidadoso, surgem algumas questões para refletir: Que lugar a carreira ocupa na minha vida? Quanto minha identidade está vinculada ao trabalho e à organização em que trabalho? Que preço que estou pagando nos outros aspectos da minha vida?


As expressões “vida profissional” e “vida pessoal” – tão usadas hoje em dia - levam ao autoengano. Quantas vidas nós temos? Uma pessoa que trabalha de 14 a 16 horas por dia só consegue ter uma vida, a profissional. Ela decide fazer da carreira o centro da vida. Os outros aspectos são periféricos e se ajustam em função dos objetivos profissionais. Não é uma questão de certo ou errado. É uma escolha. O importante é saber o que há por trás dessa escolha e pra onde ela vai te levar.

A fase da vida na qual muitos investem intensamente na carreira é também a fase de consolidação de outros aspectos essenciais no desenvolvimento do ser humano. Vínculos afetivos importantes se desenvolvem (ou não) na mesma fase em que a carreira está bombando. A má notícia é que a carreira não vai “bombar” a vida inteira. Se existe um universo no qual a obsolescência humana é certa, esse universo é o corporativo. Sempre aparece um chato com um MBA melhor ou que fala mandarim. E, pior ainda, com a pilha novinha e crente que vai virar o CEO e ganhar o primeiro milhão antes dos 30, como prometem as revistas do mundo business.

Quando a carreira começa a entrar em declínio, só resta uma coisa a fazer: voltar para a “vida pessoal”. Difícil é descobrir que não há muita coisa por lá. Se não houve equilíbrio e investimento em outras dimensões da vida não vai ter muita gente esperando quando voltarmos. Não há como curtir a infância dos filhos crescidos, nem como desfrutar de amizades que não foram cultivadas. A gente corre o risco de ouvir dessas pessoas o “não precisamos mais dos seus serviços” – que tanto evitamos. A vida que fica é a vida na qual investimos. O perigo é que, assim como na vida de Ryan, haja pouca coisa para celebrar, além das milhas acumuladas.

Sandra Felicidade
Psicóloga - CRP 08/12815
Psicologia Clínica, Sócioambiental e do Trabalho

Contatos:
(41) 99699-2665 - sfelicidade.psi@gmail.com

6 comentários:

  1. Sandra!!
    Como toda reflexão sua, muito pertinente.
    Parabéns, não apenas pelo artigo, mas pelo Blog =)
    Sucesso.
    Bj
    Cris

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  2. Cara Sandra Felicidade,

    A vida profissional e a vida pessoal são, sempre, dignas de reflexões.

    Já conheço adultos jovens, na faixa dos 25, que tem algumas ideias formadas e delas constam, um plano A e um B, as vezes um C. Não sei se é o caminho, mas acho que eu agiria assim.

    Engenheiro, Analista de Sistemas, consultoria e treinamento em Qualidade Total, Gestão de Pessoas e, finalmente, escritor. Por trás dos panos, ainda tem a culinária e a marcenaria.

    Uma vida muito próxima a família, mas não que eu tenha optado por isso. Aconteceu apenas. Há 17 anos, tenho minha casa como base de trabalho. Essa por opção.

    Acho que os textos, como o seu, que nos trazem momentos de reflexão são sempre bem vindos.

    Sandra, parabéns pelo Blog, e solte mesmo a sua voz. Precisamos dar ao mundo a opção de nos ouvir.

    Beijo no coração,

    Silvio T Corrêa

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  3. Em geral a gente sempre acaba mal e com uma enfermidade sem nome e buscando reconstruir aquilo que vc nem sequer edificou, neste momento temos que começar de novo... e reinventar a sua própria vida... ou ficar só, na espera de algo que não virá!! Uma idéia é arregaçar as mangas e volter na ativa pois tem muita vida pela frente e deve ser conquistada de cara limpa e com coragem.... Boa sorte!
    Ótimo texto.
    Abraços

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  4. LEGAL SEU BLOG. CLARO, ORGANIZADO E, LÓGICO, VAI FICAR SEMPRE RECHEADO DE COISAS GOSTOSAS DE LER.
    PARABÉNS!
    ZEZÉ

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  5. Oi, Eduardo!
    Grata pelo comentário! Concordo com você, mesmo quando a gente percebe que fez algumas escolhas equivocadas, sempre é tempo de fazer novas escolhas. A vida é muito generosa e sempre responde quando a gente resolve adotar novas perspectivas. Abraços, Sandra

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  6. Oi, Zezé!!
    Eu gosto muito da ideia do blog - acho um canal de contato muito rico e democrático. Já fazia um tempo que pretendia criar o meu e decidi concretizar. Vou publicar semanalmente. Quando quiser fazer uma visita e deixar suas contribuições, será uma grande alegria. Beijos Sandra

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