sexta-feira, 22 de abril de 2011

Os dias eram assim


E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim


Aos Nossos Filhos - Ivan Lins/Vitor Martins

O período da ditadura foi marcado pela proibição e pelo medo. Nossas liberdades mais essenciais foram tiradas. As pessoas não podiam se expressar e eram cerceadas de inúmeras formas. Os dias eram assim. Ainda bem que estamos livres da ditadura… militar. Nós evoluímos muito de lá pra cá e ficamos muito bons nesse negócio. Temos formas mais sofisticadas e sutis de controle social. Hoje vivemos sob a ditadura econômica, com seus vários indicadores: a produtividade, o crescimento, o sucesso, a carreira, a competitividade, o consumo, a beleza padronizada. Essa forma de controle social é acrescida de um elemento poderoso: o consentimento interno, fruto de uma espécie de hipnose coletiva.

O filósofo Zeljko Loparic diz que hoje vivemos o período marcado pela proibição do descanso e pelo medo do fracasso. Não importa quanto você produza, nunca será o suficiente. Não descanse. Não vá para casa. Não desligue o notebook nem o iPhone. E, pelo amor de Deus, não tire férias. Pode ser mortal, pelo menos para sua carreira. O concorrente não dorme; por que você dormiria? Além do mais, o que você teria de tão mais interessante para fazer? Ler um livro? Encontrar seus amigos? Namorar? Ficar de papo pro ar? Contemplar a vida? Conhecer coisas novas? Curtir os pimpolhos em casa? Pra quê!?

Alguns especialistas dizem que se tiver “qualidade” naqueles dez minutinhos que você dedica aos pimpolhos, está tudo bem. Eles já ficam bem felizes e o vínculo está garantido. Tenho uma má notícia.  Vínculos são construídos com atenção, convivência, envolvimento e cumplicidade – o que só é possível com uma considerável “quantidade” de presença. A boa notícia é que eles vão crescer mesmo assim. E quando eles forem adultos, espere os mesmos dez minutinhos de visita semanal, ok? Mas vai ser com muita qualidade, fique tranquilo.

Cada vez mais pessoas começam sair da hipnose e assumem a responsabilidade integral pela própria vida – o que inclui o trabalho. Muitas pessoas decidem sair de trabalhos incompatíveis com seus valores e anseios mais verdadeiros. Elas, de fato, decidem… onde, com quem, para quem e pelo quê trabalhar. Aliás, em última instância, trabalham para si mesmas e pelos seus sonhos. Li uma entrevista com escritor Paulo Coelho, em que a jornalista faz a singela pergunta: “O que o senhor faz no seu tempo livre?”. Ele responde: “Todo o meu tempo é livre!”. Fiquei aqui pensando na cara da jornalista… É isso mesmo! Quem trabalha pelo sonho tem todo o seu tempo livre. Isso é utopia?

Ainda que o estilo de vida do Paulo Coelho - sonho de consumo de dez entre dez terráqueos – seja inatingível para a maioria dos mortais, alinhar o trabalho aos anseios mais profundos e ser dono do próprio tempo é uma escolha que está disponível para todos. Mas é uma decisão muito complexa, que exige autoconhecimento, coerência e uma tremenda dose de coragem. Envolve sair da hipnose, da zona de conforto e lembrar: “qual era mesmo o sonho?" Além do mais, quem deseja fazer mudanças profundas no trabalho, provavelmente terá que reformular outros aspectos da vida. Pode ter que repensar os hábitos de consumo, aceitar a inevitável mudança no círculo social, ficar sem aquele “sobrenome” que confere tanta diferenciação e identidade. Sejamos realistas, o êxito de uma mudança dessas proporções dependerá muito do apoio familiar. É um trabalho de equipe.

Permanecer num contexto profissional que impõe um ritmo incompatível com a vida é uma grande violência contra si mesmo. Contra o sonho. Tomar consciência disso é o primeiro passo. Esta é uma revolução individual e silenciosa que pode mudar o conceito de trabalho. Quando vemos todos os aspectos da vida em perspectiva, o culto à carreira não faz o menor sentido. Para quem ousa dar o salto, as recompensas são grandes. Ser o dono do próprio tempo é uma delas. O universo realmente conspira a favor daqueles que levantam da cama para realizar o sonho.

Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga; atua como consultora e psicoterapeuta de base sistêmica e analítica. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.

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