terça-feira, 24 de maio de 2011

Novos Paradigmas: Empatia e Visão Sistêmica – o caminho para a inteligência coletiva

"Se quiser ir rápido, vá sozinho;
se quiser ir longe, vá em grupo."
Provérbio africano

Recentemente, participei de um curso sobre empatia e visão sistêmica com Susan Andrews e Linda Booth Sweeney. Na verdade, foi muito mais do que um curso. Foi uma daquelas experiências que nos fazem cruzar novas fronteiras. A gente passa a perceber o que não percebia antes. É como nos maravilhosos desenhos de Escher: quando você consegue enxergar o que estava oculto, não consegue mais deixar de enxergar. É um novo nível de consciência e de percepção. Isoladamente, visão sistêmica e empatia são conceitos conhecidos. Mas uma nova fronteira se abre quando conseguimos perceber a conexão entre eles: a inteligência coletiva.

 Foto: Grupo de teatro do Parque Ecológico Visão Futuro. Conto Sufi: O viajante (sobre empatia e a capacidade de perceber as conexões...)
Somos “programados” para sermos empáticos e, com isso, ficarmos sensíveis às conexões – que são os pontos de ativação da inteligência coletiva. Mas, em algum ponto do caminho, vamos perdendo essa habilidade humana tão importante. Passamos a acreditar na ilusão de que somos separados uns dos outros, adotamos uma visão fragmentada da vida, criamos territórios e passamos a lutar por eles. A competição e o individualismo estão na origem dos principais problemas da atualidade. Perdemos a percepção da interdependência e, ironicamente, criamos problemas com um grau de complexidade que individualmente não conseguimos solucionar.

O que isso tem a ver com o ambiente organizacional? É um ambiente onde comportamentos territoriais são fortemente encorajados. Há uma ideia equivocada de que recompensas por performances individuais sejam motivadoras, estimulem a criatividade e façam cada um dar o seu melhor. O efeito é exatamente o oposto. A recompensa está baseada na ideia de escassez, já que só existe prêmio - seja de que natureza for - para o “melhor”. A primeira coisa que a recompensa faz é tirar o significado do trabalho. O profissional passa a trabalhar pelo prêmio, não pelo valor daquilo que está sendo realizado. A segunda coisa é tornar o ambiente hostil – sem espaço para a empatia e para a espontaneidade: “Como é possível ter empatia na relação com alguém que disputa o prêmio comigo?” A terceira consequência desse modelo é a visão fragmentada e o comportamento territorial. É o famoso “salve-se quem puder”! Adeus visão sistêmica... Finalmente, esse cenário é completamente desfavorável ao florescimento da inteligência coletiva – tão necessária em tempos de desafios cada vez mais complexos, inclusive nas organizações.

A boa notícia é que esse mesmo cenário tem um potencial extraordinário de transformação. As interações humanas – formais e informais, reais e virtuais - são oportunidades de conectar ideias, ativar a inteligência coletiva e estimular a criatividade. Mas antes precisamos resgatar a empatia como requisito para o desenvolvimento da visão sistêmica. Ambientes que favorecem as interações e a espontaneidade contribuem para que as pessoas preservem a empatia, desenvolvam a visão sistêmica e tenham os insights geradores de inovação. O conhecimento circula e tem efeito multiplicador - não está restrito a um território, nem submetido à lei da escassez.

Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga; atua como consultora e psicoterapeuta de base sistêmica e analítica. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.

domingo, 15 de maio de 2011

Novos Paradigmas: Simplicidade e Felicidade

Olhe bem nos meus olhos
Olhe bem pra você
A quem é que a gente engana com a nossa loucura
De certo que a gente perdeu a noção do limite
Oswaldo Montenegro

O físico Fritjof Capra diz que, entre todos os sistemas vivos, o único que tem a ilusão do crescimento ilimitado é o câncer; e que nem ele tem êxito. Não é um sistema inteligente, porque mesmo quando consegue atingir seu propósito – driblar o sistema imunológico, espalhar-se pelo organismo que o hospeda e dele se alimentar - está caminhando para a própria morte. Ele esgota a vitalidade do organismo que o alimenta e, claro, morrerá também. Seu objetivo é crescer. Para onde? Para quê? Nem ele sabe, já que o câncer é decorrente de uma mutação no núcleo da célula, que a fez perder a informação da sua função original.
É uma ótima analogia para a lógica de mercado que rege diferentes setores da atividade humana - incluindo a gestão das organizações, a ocupação dos espaços, a exploração dos recursos naturais, as relações interpessoais, os valores e hábitos de consumo da sociedade atual – tudo isso com altíssimos níveis de impacto ambiental e humano. Mesmo com todos os sinais de “metástases” – que se expressam em nossa sociedade através de um estilo de vida vazio de significado – "produzir e consumir" continua sendo o nosso mantra e é sinal de “evolução”. O importante é crescer. Para onde e para quê? Parece que já não sabemos mais.

As evidências de colapso ambiental, social e econômico apontam a urgência em adotarmos novas abordagens de vida, fundamentadas em um novo paradigma. Nos anos 80, Duane Elgin foi considerado um visionário ao iniciar o diálogo em torno da chamada “simplicidade voluntária” – que é o estilo de vida exteriormente simples, mas interiormente rico e criativo. A opção por esse estilo de vida expressava uma postura consciente frente aos valores massificantes da sociedade industrial. Para quem pensa que simplicidade voluntária é papo de bicho grilo dos anos 80, acertou. Isso é coisa do passado, de quando ainda tínhamos tempo para decidir. Adotar uma simplicidade consciente não é mais uma questão de vontade – é uma urgente necessidade. Com o colapso dos grandes centros e a exaustão do estilo de vida baseado no consumo, já estamos em outro estágio em termos de “liberdade”.

Viver com simplicidade não é o mesmo que viver com precariedade. Ao contrário, a simplicidade cria oportunidade para que a riqueza encontre outras formas de expressão – capazes de gerar felicidade genuína e duradoura. O físico e ex-monge budista Alan Wallace diz que podemos buscar dois tipos de felicidade: a “felicidade do caçador” – que é baseada na escassez, na disputa, no domínio e na atitude predatória - é uma felicidade passageira; e a “felicidade do agricultor” – que é baseada na capacidade de gerar, cuidar, multiplicar e compartilhar – esta é a felicidade duradoura.

Abraços fraternos,
Sandra Felicidade
Consultoria, coaching e psicoterapia

Ilustração: Mafalda - Quino