quinta-feira, 9 de junho de 2011

Uma jornada de transformação ao redor do tabuleiro

 
Visão Sistêmica e Relações Humanas no Trabalho
 "O atual tipo de organização está em vigor há mais de cem anos, com alguns pequenos retoques. E os pequenos retoques agora já não bastam."
Domenico De Masi

Uma época de desafios complexos exige a capacidade de pensar e agir de forma sistêmica. Quando estamos buscando soluções, não podemos perder de vista todo o contexto em que a situação se apresenta. Assim como num jogo de tabuleiro, qualquer escolha ou movimento que façamos tem desdobramentos que afetam o todo.
 
Tive esse insight há vinte anos, quando redescobri a magia dos jogos de tabuleiro. Os jogos podem ser instrumentos de aprendizado e transformação, principalmente em contextos que envolvem pessoas interessadas em construir caminhos para um novo modelo de organização, de sociedade e de relações humanas.
 

Sentar ao redor de um tabuleiro ativa forças grupais tão primitivas quanto sentar ao redor de uma fogueira. Começa pelo simples “sentar em círculo”, que significa “estamos em posição de igualdade”. Somos convocados de uma forma meio ancestral e isso não é brincadeira, é muito sério. O círculo ativa imediatamente o sentimento de pertencimento. Ele é inclusivo e igualitário.

A origem dos jogos de tabuleiro é bastante incerta, mas há registros de jogos em diferentes civilizações. O escritor Nigel Pennick pesquisou o paralelismo entre os jogos de tabuleiro e o funcionamento das cidades, em diferentes culturas. Os jogos sempre foram usados como representação da organização geográfica e social de um povo.

O que faz do jogo de tabuleiro um instrumento tão rico para o trabalho com pessoas? Primeiramente, o tabuleiro é colocado como um elemento central, para onde as atenções convergem. Ele permite ver o cenário completo. Todos os elementos estão ali representados e é possível entender como eles interagem. Ou seja, ele dá uma visão sistêmica. É possível ver os desafios do caminho e os recursos disponíveis para superá-los.  A trilha – elemento essencial no tabuleiro – é uma metáfora do caminho a percorrer. Ela simboliza a jornada para atingir um determinado propósito.

O caráter lúdico da experiência permite abordar temas desafiadores e delicados de uma forma confortável, preservando os participantes e evitando confrontos improdutivos e desgastantes. As resistências do grupo diminuem muito quando se tem um elemento lúdico como mediador da vivência. O ganho em termos de qualidade na comunicação é imenso. O jogo é um simulador que permite aos participantes o exercício de novas possibilidades, num contexto protegido. Não há risco no jogo. Ele é muito efetivo no desenvolvimento de habilidades duradouras que resultam em transformações significativas na comunicação e nas relações interpessoais no trabalho. Isso porque ele atua muito profundamente na mudança de percepção das pessoas.

A liderança existe, mas não está restrita a uma pessoa. A liderança é um princípio, não uma pessoa - é uma liderança circular. Dessa forma, não há razão para comparar desempenhos, na disputa pelo escasso posto de líder. A competição simplesmente não tem sentido nesse contexto. A liderança não é troféu. É um equívoco pensar que a única coisa que motiva as pessoas é a competição e algum tipo de troféu. As pessoas são mais interessantes do que isso. Então, o que move as pessoas quando elas deixam de se preocupar com as comparações e disputas por conquistas individuais e de curto prazo? Outras motivações mais sofisticadas começam a surgir. Curiosamente, todos começam a dar o seu melhor. As pessoas começam a acionar outros recursos e saltam para outro patamar, como grupo.

Utilizar jogos de tabuleiro nas empresas não é uma coisa nova, mas é muito ousado. Paradoxalmente, é ousado exatamente pela simplicidade. Numa época de jogos eletrônicos e de tecnologias digitais, a proposta de trabalhar com um instrumento aparentemente “rudimentar” como um jogo de tabuleiro, parece mesmo uma brincadeira.

Você cria um contexto muito simples com os recursos essenciais. Dessa forma, o foco é colocado nas pessoas e nas relações. Liberadas das preocupações com disputas, as pessoas ingressam num outro nível de comunicação e criatividade. Elas têm a oportunidade de refletir sobre desafios comuns. Podem compartilhar experiências e percepções. Criam um espaço no qual todas são ouvidas. Caminham pelo tabuleiro juntas e percebem que podem construir e trilhar uma verdadeira jornada de transformação. Definitivamente, isso é muito ousado.

Os jogos são aplicáveis em diferentes contextos, com temas personalizados e diferentes níveis de complexidade e profundidade, dependendo do perfil do grupo. Informações sobre workshops e coaching com os jogos: sandra.happiness@terra.com.br ou (19) 98210-2330


Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga; atua como consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.
Foto: Jogo desenvolvido para a 3M do Brasil. Propósito: Visão sistêmica, capacidade crítica e criativa, inteligência coletiva.

Um comentário:

  1. Olá Sandra,
    Interessante ver como está estruturado as ideias e estratégias por trás do Relações em Jogo. O ambiente, as situações e a propensão à mudança. Parabéns pelo trabalho desenvolvido na área de Customer Order Fulfillment e Sucesso.

    ResponderExcluir