segunda-feira, 11 de julho de 2011

As lições do fracasso


Quando não tiver mais nada
nem chão nem escada
escudo ou espada
o seu coração acordará.
Nando Reis / Arnaldo Antunes

Boa parte dos livros e palestras na área de desenvolvimento pessoal é destinada a temas relacionados ao sucesso. Embora digam que sucesso é algo subjetivo – que diz respeito a conquistar aquilo que tem significado para cada um – todos ensinam a ter sucesso nas finanças, na carreira, na vida social, amorosa e sexual. O discurso reafirma muito claramente quais são os indicadores de sucesso - não há nada de tão subjetivo assim: você tem ou não tem. O sucesso é sempre definido segundo parâmetros muito objetivos e socialmente verificáveis. Nessa ótica, sucesso é sinônimo de desenvolvimento pessoal.
Raramente o fracasso é apontado como uma experiência importante para o nosso desenvolvimento pessoal. Quando ocorre, deve ser superado e esquecido o mais rápido possível. E, de preferência, escondido - para não arranhar a imagem que sustentamos socialmente. Não somos muito encorajados a incluí-lo no currículo. O sucesso é público, o fracasso é privado.
No meio de toda essa apologia ao sucesso, foi exatamente o livro sobre a experiência de um homem que foi destituído de todos os seus símbolos de sucesso, que me chamou a atenção na livraria. Michael Gates Gill, um americano que teve um inquestionável sucesso em todos os quesitos mencionados acima, conta em seu livro “Como a Starbucks salvou minha vida” – a oportunidade que teve de recriar e resignificar a própria vida, após sofrer grandes e irremediáveis perdas.
Não é um livro piegas do tipo “mais vale ser pobre e feliz do que...”. É o relato de alguém que redefiniu “sucesso” para si mesmo, a partir de pequenas conquistas do cotidiano – imperceptíveis para os outros – mas intimamente muito significativas. Exatamente aí reside a grande diferença daquele sucesso vendido nas palestras e livros – que é o sucesso observável pelos outros. Da necessidade desse tipo de sucesso, Michael se libertou. Não porque atingiu o nirvana, mas porque a vida que ele havia construído entrou em colapso. Ele fracassou. Mas foi a partir daí que ele começou a viver de forma mais significativa – o que não deixa de ser uma espécie de iluminação.

Fiquei totalmente envolvida pela leitura e me lembrei da palestra com o filósofo Zeljko Loparic: “O medo do fracasso”. Ele expõe o pavor que as pessoas têm de fracassar, num mundo que exige padrões cada vez mais elevados de desempenho. Loparic levanta um ponto muito importante, que a experiência de Michael confirma: existem aspectos fundamentais em nós que só se desenvolverão se tivermos a experiência do fracasso.


Penso, imediatamente, em três oportunidades que essa experiência proporciona:
Ficar livre das expectativas alheias
A primeira delas é a oportunidade de nos libertarmos das expectativas alheias e redefinirmos as coisas a partir de uma referência interna. Quem está preso àquela obrigação de sucesso – no que se convencionou chamar de sucesso – é, necessariamente, escravo das expectativas alheias, já que são os outros que definirão se você tem sucesso ou não. Quem fracassa deixa de ser interessante aos olhos dos outros – portanto, não precisa atender às expectativas de mais ninguém. Quando você percebe que sobreviveu à perda desse reconhecimento externo – que é muito fugaz – ganha uma perspectiva muito mais ampla da situação.
Adotar uma nova perspectiva
A mudança de perspectiva é a segunda coisa que se ganha nesse processo. Quando você só teve êxito, adotando um determinado ponto de vista – é muito improvável que seja estimulado a explorar novas formas de pensar, perceber e agir. Enquanto as coisas estão “funcionando” e atendendo nossas necessidades e interesses, estamos tendo sucesso e as coisas estão confortáveis. Não há porque mudar. Somos “forçados” a uma mudança de perspectiva exatamente quando as coisas não estiverem mais funcionando para nós. Precisamos sair da nossa zona de conforto – já que ela não oferece mais segurança ou porque os nossos referenciais começaram a mudar.
Desenvolver a resiliência
A resiliência é outro atributo importante que desenvolvemos ou ativamos internamente, quando passamos por uma grande perda. É a capacidade de mobilizar recursos físicos, emocionais, mentais e espirituais para restaurar a nossa integridade como ser, após sofrer um grande abalo. Quando você percebe que sobreviveu – apesar da pequena morte social gerada pelo fracasso – e passou a enxergar novos horizontes, é capaz de mobilizar recursos internos sempre que se deparar com as adversidades e se torna muito menos vulnerável diante delas.
Dessa perspectiva, o temido fracasso pode ter aspectos muito transformadores. Assim como Michael redefiniu sucesso, nós também podemos redefinir fracasso. Esses dois conceitos não precisam ser assim tão polarizados. Nós vivemos numa sociedade tão competitiva e individualista, em grande parte, por ter esses conceitos como absolutos. Essa é, possivelmente, uma das principais causas de infelicidade e solidão no mundo atual. Quando o único jogo que conhecemos e jogamos é o do “ganhar ou perder”, ter sucesso é ganhar para garantir nosso lugar no jogo, eliminando o outro; fracassar é perder e ser tirado definitivamente do jogo.
Mas quem vive a vida como um jogo infinito, sabe que nunca vai ser eliminado do jogo e não tem necessidade de eliminar ninguém. Sabe que o outro é fundamental para que o jogo continue – e acolhe tanto o sucesso quanto o fracasso, como formas de se desenvolver como pessoa.
Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga - CRP 08/12815. Consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.
Contatos: (41) 3093-9989 / (41)  9841-4078

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