terça-feira, 25 de outubro de 2011

Meditação - Aprendendo a olhar para dentro

Parte I

“Quem olha para fora sonha;
quem olha para dentro, acorda.”
 Jung

O estilo de vida que adotamos, principalmente nos grandes centros, faz com que fiquemos voltados o tempo todo para os apelos externos – que são inúmeros e concorrem entre si. É fácil perceber como a vida está pautada nos referenciais externos. O valor de uma pessoa é medido pela sua competência, entendida basicamente como a capacidade de gerar resultados nas ações voltadas para fora – pessoal e profissionalmente. Vivemos numa aceleração totalmente arbitrária que desrespeita nossos ritmos naturais, causando uma grande confusão orgânica e psíquica. Nossas vivências mais elementares são mediadas por tecnologias sofisticadas que vão se tornando imprescindíveis. Estamos tão ocupados em absorver informação externa – muitas vezes descartável e inútil - que ignoramos sistematicamente nossa principal fonte de informação que é interna. Meditar é adquirir o controle da própria energia psíquica e acessar nossa fonte de informação interna, que é perfeita e está disponível permanentemente.


O termo meditação é abrangente e contempla diversos métodos de educação mental. Embora as diversas técnicas estejam presentes em diferentes tradições espirituais, a prática da meditação e os seus benefícios independem da adesão a qualquer sistema religioso. Como exercício mental, sua prática não entra em conflito com nenhuma religião. 

O método de meditação baseado na concentração em um único ponto é o mais comumente praticado. Ao focar em um único ponto - que chamamos de “âncora” -  estamos mantendo nossa atenção em um canal muito afiado, no qual a densidade de energia psíquica fica muito maior. As implicações disso são tremendas. Os físicos quânticos vêm estudando o que as tradições espirituais já sabem há milênios: quanto maior a densidade de energia, maior o poder criador da consciência no mundo objetivo.

Estamos criando nossa própria realidade a todo momento, através do modo como pensamos – gostemos disso ou não. Nossa realidade é a materialização dos nossos padrões mentais. O grande problema é que habitualmente somos tomados por uma cadeia de pensamentos involuntários. Em geral, temos muito pouco controle sobre os nossos processos psíquicos. É muito difícil identificar em que momento fomos tomados por um determinado pensamento. Quando percebemos já fomos capturados por uma teia mental.

Podemos ilustrar esse processo da seguinte maneira. Suponha que um acontecimento qualquer do cotidiano faça você se lembrar de uma experiência significativa do passado. Essa lembrança aciona um pensamento que sempre terá uma ou mais emoções envolvidas – boas ou más. Pensamento e emoção estão intimamente relacionados – um serve de combustível para o outro. A emoção ativada vai alimentar outros pensamentos compatíveis com aquele padrão emocional e com o pensamento original. Os pensamentos sempre “andam em turma” – cuidado! Se esse processo evoluir de forma autônoma, você ficará preso em uma “prisão perceptual” que influenciará a leitura que você faz da situação em que está e, consequentemente, sua maneira de se posicionar.

A meditação é o treino sistemático para educarmos nossos processos mentais e identificarmos os gatilhos que ativam a cadeia de pensamentos/sentimentos nocivos. Ela permite sair da “zona de ruído” da nossa própria turbulência mental, para que possamos acessar um ponto mais sutil e elevado do nosso próprio ser (que não está contaminado pela experiência). Esse é o ponto onde encontramos orientação, inspiração, serenidade, apoio e os insights – que podem trazer soluções para os nossos maiores desafios.

Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga - CRP 08/12815. Consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates. Praticante de meditação há mais de 20 anos.

Contatos: (41) 3093-9989 / (41) 9841-4078  
sandra.happiness@terra.com.brhttp://br.linkedin.com/in/sandrafelicidade

Vídeo: Meditation - Then and now (http://www.yesplus.org.br/). Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=_OS5ez7DVzs. Acesso em 25/10/2011.

domingo, 16 de outubro de 2011

O Dinheiro e o Significado da Vida* - Jacob Needleman

“Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios.”
Paulinho da Viola



O dinheiro é um elemento central na nossa vida, estejamos conscientes disso ou não. A todo momento - das escolhas cotidianas às decisões mais amplas - há uma motivação relacionada à questão do “ganhar ou perder”, em termos materiais e financeiros. Há também uma preocupação permanente com a escassez que distorce nossa percepção do que é suficiente e, com isso, passamos a ter necessidade de acumular. As principais conquistas da sociedade moderna e os maiores problemas da atualidade, de alguma forma, dizem respeito à nossa relação com o dinheiro – individual e coletivamente.
No livro “O dinheiro e o significado da vida”, Jacob Needleman propõe uma reflexão profunda sobre a forma com que lidamos com a questão do dinheiro. O autor expõe nossa postura de reverência diante desse deus, gerada pela perda de significado e de percepção do sagrado em nossas vidas. Abaixo, compartilho trechos do “guia do usuário” – adicionado pelo autor, como convite à reflexão sobre o lugar que o dinheiro ocupa em nossa cultura.  No momento em que o mundo inteiro está se confrontando com as consequências (econômicas, políticas, sociais e ambientais) de um modelo cuja principal motivação é o dinheiro, vale a pena refletir sobre nossa relação com esse deus e como ele orienta nossas escolhas.
Sandra Felicidade
A força do dinheiro
Qual é exatamente, e como se originou, a nossa atitude ante o dinheiro? Até que ponto nosso senso de identidade se prende às nossas emoções com relação ao dinheiro? Essas perguntas nos convidam a descobrir em que grau as atitudes ante o dinheiro nos foram insufladas na primeira infância, quando nossas mais intensas emoções já se alojavam no lugar que iriam ocupar pelo resto da vida.
“A nação mais rica e poderosa da Terra”
O que é a verdadeira riqueza? Ter aquilo de desejamos... ou aquilo que temos necessidade? Será viável uma civilização em que os bens materiais não sejam prioritários nos corações e mentes das pessoas? O ponto crucial da questão é que a cultura, como o indivíduo, faz escolhas fundamentais quanto ao que é importante ou secundário. O que chamamos de “riqueza” é determinado unicamente por essas escolhas fundamentais, feitas em geral à superfície de nossa consciência? Ou temos o poder – talvez o dever – de definir para nós mesmos o que a riqueza de fato significa?
A nova pobreza
Falando em escolhas secretas, parece que a certa altura da era moderna nossa sociedade preferiu coisas a “tempo” e objetos materiais a “lazer”, daí a situação atual, em que possuímos muitas “quinquilharias”, mas pouquíssimo tempo. De que modo nos relacionamos com o tempo em nossas vidas e em que grau o tempo determina nossa atitude para com o dinheiro? Poderemos redefinir a riqueza em termos de tempo? Existem qualidades e tipos de tempo ou este não passa de um elemento quantitativo? Será verdade que a nossa é uma sociedade “sem tempo”? 
Como levar o dinheiro a sério
Qual é a diferença entre levar o dinheiro a sério e ficar obcecado por ele? Segundo o sociólogo Georg Simmel, nossa obsessão com o dinheiro deve-se à influência da tecnologia na vida moderna. Tanto a tecnologia quanto o dinheiro são, essencialmente, instrumentos ou meios para um fim. Nós, como indivíduos e como cultura, destinamos uma quantidade desproporcional de energia aos instrumentos e esquecemos (ou negligenciamos) os fins para os quais eles foram originalmente concebidos?
Deus e César
A nosso ver, o que o dinheiro pode fazer por nós? Falamos dele como se fosse uma espécie de deus de nossa cultura. O que isso significa? Que haverá de concreto e de ilusório no poder que atribuímos à posse do dinheiro? É possível investigar em que medida o dinheiro realmente colabora para nos dar, não apenas alguma segurança, mas também amor, amizade e conhecimento?

O que o dinheiro pode e não pode comprar

Considere isto: há poucos problemas na vida que não podem ser resolvidos com uma quantia suficiente de dinheiro. Será verdade? Que tipo de solução o dinheiro proporciona aos problemas da vida? Em que circunstâncias tentar resolver um problema pessoal com dinheiro mascara as necessidades a serem diretamente enfrentadas? Quando é que o emprego do dinheiro reflete uma compreensão realista das forças envolvidas em dada situação e daquilo que de fato é necessário?

Por que o dinheiro parece tão real?

Por que, para muitos de nós, o "balanço financeiro" parece o fator mais real e contundente da vida? Será em virtude da intensidade de nossas emoções em relação ao dinheiro? É possível "ir além" do dinheiro e, graças a sentimentos ainda mais intensos, alcançar aspectos da vida alheios ao fator monetário? Mas que aspectos são esses? Tudo no mundo exterior já não está permeado por razões de lucros e custos?

Coisas

Em que medida a nossa cultura identifica felicidade com posse material? Quais são, realmente, as nossas experiências a esse respeito? Que tipo de felicidade ou bem-estar auferimos de fato da posse material, seja ela qual for? Já se disse que a principal obsessão da humanidade em nossa época é a ânsia por conforto no mundo. Qual o alcance desse diagnóstico?

“O dinheiro e o significado da vida”
O sociólogo Max Weber empregava a expressão “ascetismo mundano” para caracterizar a devoção e a autonegação com que as pessoas de hoje perseguem a riqueza. Até que ponto transformamos o sucesso mundano numa justificativa de nossas vidas? A crença nessa equação estará desmoronando em nossa cultura?

*Guia do usuário, com ideias para reflexão e debate - extraído do livro: O Dinheiro e o Significado da Vida – Jacob Needleman. Editora Cultrix
Sobre o autor: Jacob Needleman é professor de Filosofia na Universidade Estadual de San Francisco e autor de diversos livros, entre os quais The New Religions. O Dinheiro e o Significado da Vida teve destaque especial na NBC News, na CNN e no programa “A World of Ideas”.
Vídeo: Paulinho da Viola interpreta “Sinal Fechado” (Paulinho da Viola)  – Acústico MTV. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=IEUPH1A7YkM. Acesso em 16/10/11.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Relações (mais) Humanas no Trabalho

"No mundo do trabalho, corre-se o risco da fascinação por uma pseudo-realidade. Criamos tamanha cegueira interna que, ao final, perdemos a conexão com nossas próprias fontes de felicidade e evolução."
Herbert Steinberg*

O trabalho cumpre uma função importante e complexa na vida das pessoas. Além de suprir nossas necessidades mais elementares, ligadas à sobrevivência – outros aspectos mais sutis e igualmente importantes estão em jogo. Independente do tipo de organização na qual ocorra, ele é feito em coletividade, em contextos que envolvem a relação com o outro. A própria realização do trabalho depende dessa interação. Num certo sentido, ele é um importante mediador das relações que se estabelecem entre as pessoas.
Ao mesmo tempo, vivemos num paradigma que impõe às pessoas um nível crescente de dedicação à atividade profissional, muitas vezes em detrimento dos outros aspectos da vida. A carreira acaba sendo a principal referência na vida de uma pessoa, quando não é o único elemento gerador de identidade. Isso torna a convivência no trabalho mais intensa e, portanto, mais propensa ao desgaste e a converter-se em fator de estresse.
Para ampliar a participação em mercados cada vez mais competitivos e agressivos, muitas organizações fomentam uma postura igualmente competitiva e agressiva entre seus colaboradores - a fim de que gerem resultados irreais e insustentáveis. Com isso, privilegiam profissionais cujo perfil evidencie a disposição de dar prioridade absoluta à carreira e ao cumprimento de metas corporativas e igual disposição para abdicar da própria subjetividade e do reconhecimento da subjetividade do outro.
Nesse cenário, vemos profissionais altamente qualificados, mas que se deparam com grandes bloqueios quando lidam com a dimensão mais valiosa do trabalho: a relação com o outro. Muitos profissionais se limitam a desenvolver competências pessoais que gerem resultados para a organização e para a própria carrreira. O desenvolvimento de aspectos humanos só é considerado relevante quando se trata de alguma característica momentaneamente valorizada na cultura corporativa, como atributo estratégico para as metas da organização ou do mercado.
As pessoas exigem de si mesmas e dos colegas níveis cada vez mais elevados de desempenho - e desconsideram perigosamente o outro, como ser humano, em todas as dimensões que o integram. Quem faz isso com o outro, fez antes consigo mesmo. Num contexto que favorece esse tipo de postura, vemos a crescente deterioração das relações interpessoais com efeitos visíveis na qualidade do ambiente de trabalho.
Precisamos começar a criar uma massa crítica que questione esse modelo. Nosso contexto profissional pode nos trazer grandes oportunidades de desenvolvimento como seres humanos.  A convivência diária com uma grande diversidade de pessoas é uma rica escola de relações humanas, na qual exercitamos a comunicação, a cooperação, a tolerância, a empatia, a ética e tantos outros valores essenciais.

Os bloqueios que encontramos pelo caminho nos convidam a ativar nossos recursos e valores mais profundos. Podemos ingressar num nível que favorece interações conscientes e transformadoras. Está aí a nossa oportunidade de saltar para um outro patamar no qual possamos redescobrir o propósito do trabalho.

Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga - CRP 08/12815. Consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.
Contatos: (41) 3093-9989 / (41)  9841-4078
sandra.happiness@terra.com.br / http://www.sandrafelicidade.com.br / http://br.linkedin.com/in/sandrafelicidade

Foto: Relações em Jogo®
* Na apresentação da edição brasileira do livro "A escola dos deuses" - Stefano Elio D'Anna