domingo, 16 de outubro de 2011

O Dinheiro e o Significado da Vida* - Jacob Needleman

“Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios.”
Paulinho da Viola



O dinheiro é um elemento central na nossa vida, estejamos conscientes disso ou não. A todo momento - das escolhas cotidianas às decisões mais amplas - há uma motivação relacionada à questão do “ganhar ou perder”, em termos materiais e financeiros. Há também uma preocupação permanente com a escassez que distorce nossa percepção do que é suficiente e, com isso, passamos a ter necessidade de acumular. As principais conquistas da sociedade moderna e os maiores problemas da atualidade, de alguma forma, dizem respeito à nossa relação com o dinheiro – individual e coletivamente.
No livro “O dinheiro e o significado da vida”, Jacob Needleman propõe uma reflexão profunda sobre a forma com que lidamos com a questão do dinheiro. O autor expõe nossa postura de reverência diante desse deus, gerada pela perda de significado e de percepção do sagrado em nossas vidas. Abaixo, compartilho trechos do “guia do usuário” – adicionado pelo autor, como convite à reflexão sobre o lugar que o dinheiro ocupa em nossa cultura.  No momento em que o mundo inteiro está se confrontando com as consequências (econômicas, políticas, sociais e ambientais) de um modelo cuja principal motivação é o dinheiro, vale a pena refletir sobre nossa relação com esse deus e como ele orienta nossas escolhas.
Sandra Felicidade
A força do dinheiro
Qual é exatamente, e como se originou, a nossa atitude ante o dinheiro? Até que ponto nosso senso de identidade se prende às nossas emoções com relação ao dinheiro? Essas perguntas nos convidam a descobrir em que grau as atitudes ante o dinheiro nos foram insufladas na primeira infância, quando nossas mais intensas emoções já se alojavam no lugar que iriam ocupar pelo resto da vida.
“A nação mais rica e poderosa da Terra”
O que é a verdadeira riqueza? Ter aquilo de desejamos... ou aquilo que temos necessidade? Será viável uma civilização em que os bens materiais não sejam prioritários nos corações e mentes das pessoas? O ponto crucial da questão é que a cultura, como o indivíduo, faz escolhas fundamentais quanto ao que é importante ou secundário. O que chamamos de “riqueza” é determinado unicamente por essas escolhas fundamentais, feitas em geral à superfície de nossa consciência? Ou temos o poder – talvez o dever – de definir para nós mesmos o que a riqueza de fato significa?
A nova pobreza
Falando em escolhas secretas, parece que a certa altura da era moderna nossa sociedade preferiu coisas a “tempo” e objetos materiais a “lazer”, daí a situação atual, em que possuímos muitas “quinquilharias”, mas pouquíssimo tempo. De que modo nos relacionamos com o tempo em nossas vidas e em que grau o tempo determina nossa atitude para com o dinheiro? Poderemos redefinir a riqueza em termos de tempo? Existem qualidades e tipos de tempo ou este não passa de um elemento quantitativo? Será verdade que a nossa é uma sociedade “sem tempo”? 
Como levar o dinheiro a sério
Qual é a diferença entre levar o dinheiro a sério e ficar obcecado por ele? Segundo o sociólogo Georg Simmel, nossa obsessão com o dinheiro deve-se à influência da tecnologia na vida moderna. Tanto a tecnologia quanto o dinheiro são, essencialmente, instrumentos ou meios para um fim. Nós, como indivíduos e como cultura, destinamos uma quantidade desproporcional de energia aos instrumentos e esquecemos (ou negligenciamos) os fins para os quais eles foram originalmente concebidos?
Deus e César
A nosso ver, o que o dinheiro pode fazer por nós? Falamos dele como se fosse uma espécie de deus de nossa cultura. O que isso significa? Que haverá de concreto e de ilusório no poder que atribuímos à posse do dinheiro? É possível investigar em que medida o dinheiro realmente colabora para nos dar, não apenas alguma segurança, mas também amor, amizade e conhecimento?

O que o dinheiro pode e não pode comprar

Considere isto: há poucos problemas na vida que não podem ser resolvidos com uma quantia suficiente de dinheiro. Será verdade? Que tipo de solução o dinheiro proporciona aos problemas da vida? Em que circunstâncias tentar resolver um problema pessoal com dinheiro mascara as necessidades a serem diretamente enfrentadas? Quando é que o emprego do dinheiro reflete uma compreensão realista das forças envolvidas em dada situação e daquilo que de fato é necessário?

Por que o dinheiro parece tão real?

Por que, para muitos de nós, o "balanço financeiro" parece o fator mais real e contundente da vida? Será em virtude da intensidade de nossas emoções em relação ao dinheiro? É possível "ir além" do dinheiro e, graças a sentimentos ainda mais intensos, alcançar aspectos da vida alheios ao fator monetário? Mas que aspectos são esses? Tudo no mundo exterior já não está permeado por razões de lucros e custos?

Coisas

Em que medida a nossa cultura identifica felicidade com posse material? Quais são, realmente, as nossas experiências a esse respeito? Que tipo de felicidade ou bem-estar auferimos de fato da posse material, seja ela qual for? Já se disse que a principal obsessão da humanidade em nossa época é a ânsia por conforto no mundo. Qual o alcance desse diagnóstico?

“O dinheiro e o significado da vida”
O sociólogo Max Weber empregava a expressão “ascetismo mundano” para caracterizar a devoção e a autonegação com que as pessoas de hoje perseguem a riqueza. Até que ponto transformamos o sucesso mundano numa justificativa de nossas vidas? A crença nessa equação estará desmoronando em nossa cultura?

*Guia do usuário, com ideias para reflexão e debate - extraído do livro: O Dinheiro e o Significado da Vida – Jacob Needleman. Editora Cultrix
Sobre o autor: Jacob Needleman é professor de Filosofia na Universidade Estadual de San Francisco e autor de diversos livros, entre os quais The New Religions. O Dinheiro e o Significado da Vida teve destaque especial na NBC News, na CNN e no programa “A World of Ideas”.
Vídeo: Paulinho da Viola interpreta “Sinal Fechado” (Paulinho da Viola)  – Acústico MTV. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=IEUPH1A7YkM. Acesso em 16/10/11.

2 comentários:

  1. É, o dinheiro em si não é bom ou ruim. É que por trás de como lidamos com o dinheiro estão nossas emoções, nosso medo, nossas crenças. O dinheiro pode ser um meio para realizações, mas nenhuma realização é conseguida se não trabalharmos a nós mesmos.
    Bjs
    Zezé

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  2. É dessa perspectiva que o autor trata o tema, Zezé. Nossa relação com o dinheiro tem muitos aspectos subjetivos com forte carga emocional. De instrumento de troca para estabelecer relações entre as pessoas, ele passou a ser um fim em si mesmo e passamos a querer represá-lo (acumulação). Com isso ele teve seu propósito corrompido e a forma com que lidamos com o dinheiro empobrece as nossas relações. Um tiro no pé...
    Beijos
    Sandra Felicidade

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