quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Relações (mais) Humanas no Trabalho

"No mundo do trabalho, corre-se o risco da fascinação por uma pseudo-realidade. Criamos tamanha cegueira interna que, ao final, perdemos a conexão com nossas próprias fontes de felicidade e evolução."
Herbert Steinberg*

O trabalho cumpre uma função importante e complexa na vida das pessoas. Além de suprir nossas necessidades mais elementares, ligadas à sobrevivência – outros aspectos mais sutis e igualmente importantes estão em jogo. Independente do tipo de organização na qual ocorra, ele é feito em coletividade, em contextos que envolvem a relação com o outro. A própria realização do trabalho depende dessa interação. Num certo sentido, ele é um importante mediador das relações que se estabelecem entre as pessoas.
Ao mesmo tempo, vivemos num paradigma que impõe às pessoas um nível crescente de dedicação à atividade profissional, muitas vezes em detrimento dos outros aspectos da vida. A carreira acaba sendo a principal referência na vida de uma pessoa, quando não é o único elemento gerador de identidade. Isso torna a convivência no trabalho mais intensa e, portanto, mais propensa ao desgaste e a converter-se em fator de estresse.
Para ampliar a participação em mercados cada vez mais competitivos e agressivos, muitas organizações fomentam uma postura igualmente competitiva e agressiva entre seus colaboradores - a fim de que gerem resultados irreais e insustentáveis. Com isso, privilegiam profissionais cujo perfil evidencie a disposição de dar prioridade absoluta à carreira e ao cumprimento de metas corporativas e igual disposição para abdicar da própria subjetividade e do reconhecimento da subjetividade do outro.
Nesse cenário, vemos profissionais altamente qualificados, mas que se deparam com grandes bloqueios quando lidam com a dimensão mais valiosa do trabalho: a relação com o outro. Muitos profissionais se limitam a desenvolver competências pessoais que gerem resultados para a organização e para a própria carrreira. O desenvolvimento de aspectos humanos só é considerado relevante quando se trata de alguma característica momentaneamente valorizada na cultura corporativa, como atributo estratégico para as metas da organização ou do mercado.
As pessoas exigem de si mesmas e dos colegas níveis cada vez mais elevados de desempenho - e desconsideram perigosamente o outro, como ser humano, em todas as dimensões que o integram. Quem faz isso com o outro, fez antes consigo mesmo. Num contexto que favorece esse tipo de postura, vemos a crescente deterioração das relações interpessoais com efeitos visíveis na qualidade do ambiente de trabalho.
Precisamos começar a criar uma massa crítica que questione esse modelo. Nosso contexto profissional pode nos trazer grandes oportunidades de desenvolvimento como seres humanos.  A convivência diária com uma grande diversidade de pessoas é uma rica escola de relações humanas, na qual exercitamos a comunicação, a cooperação, a tolerância, a empatia, a ética e tantos outros valores essenciais.

Os bloqueios que encontramos pelo caminho nos convidam a ativar nossos recursos e valores mais profundos. Podemos ingressar num nível que favorece interações conscientes e transformadoras. Está aí a nossa oportunidade de saltar para um outro patamar no qual possamos redescobrir o propósito do trabalho.

Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga - CRP 08/12815. Consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.
Contatos: (41) 3093-9989 / (41)  9841-4078
sandra.happiness@terra.com.br / http://www.sandrafelicidade.com.br / http://br.linkedin.com/in/sandrafelicidade

Foto: Relações em Jogo®
* Na apresentação da edição brasileira do livro "A escola dos deuses" - Stefano Elio D'Anna


5 comentários:

  1. Oi Sandra
    É esse o grande drama no mundo corporativo. Muitos técnicos de alta qualidade, mas a questão dos relacionamentos ainda precisa ser encarada de frente. Percebo um momento de grandes mudanças no sentido de que muitas pessoas, no auge da crise externa, volta para vasculhar seu interior para saber quem são realmente.
    Bjs
    Zezé

    ResponderExcluir
  2. Absolutamente. Cada vez mais, o exemplo que vem de cima determina o caminho da insolência e da procrastinação. Não vejo nenhuma tendência à ampliação da confiança mútua. A desconfiança é crescente e a esperteza prospera. Lamento, mas não consigo enxergar um futuro menos dramático, pelo menos para o mandato deste "deus". Ao contrário, visualizo uma espécie em declínio, rumo à própria extinção. A mais competente espécie de todos os tempos, ao que se sabe e dentro desta avaliação arrogante e soberba que nos diferencia das outras espécies, e a espécie que por menos tempo sobreviverá. E o trabalho, na forma em que ele é administrado e profanado atualmente, somente corrobora a valorização das formas menos descentes de obter-se, além do pão nosso de cada dia, os confortos e carinhos sistematicamente estabelecidos e transformados em necessidades básicas.
    Ando muito mal humorado e cético. Pode ser que não seja nada disto e, como não tenho nenhum amor pela coerência, pode ser que amanhã eu esteja pensando tudo ao contrário. Acho ainda que não sou bipolar!
    Abraço,
    Gustavo Horta

    ResponderExcluir
  3. Oi Sandra,
    Ótimo texto para refletir sobre a questão do relacionamento, de modo geral.

    Sim, devemos mesmo exercitar, e cada vez mais, a nossa interação com a sociedade, de modo geral. Devemos, principalmente, ouvir, além das que você mencionou. Vivemos em comunidade e para eu estar bem com você, preciso estar bem comigo e isso só ocorrerá se eu conviver, ao invés de ficar tolido no meu mundo particular, remoendo as rasteiras que tomo.

    Beijos,
    Silvio T Corrêa
    www.silviocorrea.com.br

    ResponderExcluir
  4. Sandra,
    De fato, a centralidade do trabalho no contexto contemporâneo persiste porque o meio social nos define pelo sistema de objetos que portamos.
    Quebrar essa concepção de valor, de si e do outro, é tarefa difícil, que nenhuma das principais instituições (a começar da família, passando pela escola e pelas autoridades públicas, com suas políticas macroeconômicas) está disposta a realizar.

    abs

    Norma Valencio

    ResponderExcluir
  5. Sandra,
    Acredito também que é essa mediação entre ser um humano e ser um trabalhador de alto desempenho, embora pareça ser simples, dada sua relativa subjetividade é difícil de ser conquistada.

    ResponderExcluir