sábado, 21 de janeiro de 2012

Meditação – medo e estresse

parte II

"O medo tem uma pequena função a cumprir. É uma espécie de sistema de alarme que adverte cada criatura sobre comportamentos passíveis de causar danos biológicos. Seu papel é proteger o corpo físico. Nunca deveria servir de motivação aos seres humanos. Onde o medo é a motivação básica, a inteligência diminui."
Visão – Ken Carey

Nos últimos anos vem crescendo significativamente o interesse científico pela meditação. Muito desse interesse está ligado às evidências de eficácia da meditação na redução dos sintomas do estresse – que é um dos principais temas de pesquisa e discussão na área da saúde. Quando se torna crônico, o estresse tem um efeito devastador no sistema imunológico – deixando nosso organismo vulnerável a todo tipo de enfermidade física e psíquica. Muitas doenças são consequência de um organismo fragilizado pelo constante bombardeio de “informações dúbias” que confundem o sistema imunológico.


O estresse é resultado da ativação fisiológica para o mecanismo de lutar ou fugir – que herdamos de nossos ancestrais e permanece em nossa memória psicofísica. O que ocorre é a ativação das propensões psíquicas mais primitivas – ligadas principalmente à raiva e ao medo, gerada pelo nosso instinto de preservação. Só que, diferente dos nossos ancestrais, cuja sobrevivência dependia da prontidão para o ataque ou fuga, nós simplesmente acionamos um mecanismo fisiológico que não será usado. Nosso organismo recebe uma cascata hormonal que causa uma grande confusão de informação. O alarme de perigo é disparado, mas não se converte em ação e o organismo não volta para o estado de relaxamento, permanece sob tensão – para o ataque ou fuga que nunca ocorre. Isso é o estresse.


O pior é que isso afeta nossa percepção e nos impede de acionar recursos “superiores” – emocionais e cognitivos, que seriam os indicados para o momento. Raramente os desafios que vivemos hoje são da ordem do “lutar ou fugir”, literalmente. Mas nós seguimos funcionando a partir dessa motivação que está basicamente ligada ao temor. Quando acionamos um recurso que não será usado e não é eficaz no contexto, deixamos de utilizar outros muito mais interessantes e efetivos. Quando adotamos uma perspectiva que se baseia no medo, imediatamente todas as outras formas de interpretação da mesma situação ficam fora do nosso alcance.


Mas por que o homem contemporâneo (e “civilizado”) se vale de um recurso tão primitivo, quando dispõe de um repertório intelectual tão mais elaborado? Porque ele opera com a mesma lógica do homem primitivo – que é baseada na escassez e no território. Infelizmente, no mundo do trabalho cultiva-se a percepção de escassez e de território, inclusive como forma de "motivar pessoas" e extrair melhores resultados. É preciso pensar nos efeitos desse modelo na saúde física e psíquica das pessoas. Mas, mesmo no melhor dos mundos corporativos, situações muito corriqueiras são potencialmente estressantes.


É sabido que você não precisa estar concretamente em uma situação de ameaça para liberar os hormônios do estresse. Basta que você pense em qualquer situação encarando-a como uma ameaça. Imagine que você esteja prestes a apresentar um projeto ou participar de uma importante reunião, na qual precise expor e defender suas idéias. Só o fato de pensar na situação será suficiente para estressá-lo(a) se você antecipa um cenário ameaçador. Esse tipo de antecipação, também conhecida como preocupação, é uma atividade mental inútil que dá uma dimensão exagerada para o fato. Além de não contribuir para uma melhor preparação, sabota seus melhores recursos e compromete seriamente seu desempenho. Quando você estiver na situação, sua percepção estará bastante distorcida, afetando suas habilidades de empatia e comunicação. O mecanismo de “luta ou fuga” nunca é útil nesses casos, a menos que você pretenda, em último caso, fugir...


Mesmo se considerarmos a situação mais extrema da nossa realidade atual, que é a violência urbana – ameaçadora em termos bem concretos – é muito provável que atacar ou fugir sejam as condutas menos indicadas. Até mesmo numa situação em que a nossa integridade física está em risco, a serenidade é o recurso mais inteligente. Estudos comprovam que a atenção e a percepção clara reduzem as chances de alguém ser escolhido como alvo. A serenidade ameniza e abrevia situações de confronto, de uma maneira geral. Portanto, ela nos preserva.


Considere isto: toda situação de estresse é uma situação que está sendo encarada como uma ameaça concreta à sua integridade física. E é você quem a está interpretando dessa forma, na esmagadora maioria das vezes. Ou seja, a maioria das situações de estresse ocorre por uma distorção de percepção. Sendo assim, a meditação não atua somente como um recurso paliativo que minimiza os efeitos do estresse. Ela atua preventivamente, já que produz efeitos na percepção que temos dos eventos externos, que é onde se origina o estresse. 

Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga - CRP 08/12815. Consultora, coach e psicoterapeuta, tendo como base a Psicologia Sistêmica e a Psicologia Analítica (Jung). Há vinte anos vem trabalhando com desenvolvimento de pessoas e organizações, utilizando a metodologia dos jogos cooperativos em tabuleiro. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates. Praticante de meditação há mais de 20 anos. 

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