domingo, 1 de abril de 2012

A natureza da simplicidade* (Simplicidade Voluntária - Duane Elgin)

"A simplicidade revela o mestre."
Provérbio oriental


O dicionário define simplicidade como sendo “direta, clara; livre de fingimento ou desonestidade; livre de vaidade, ostentação e exposição indevida; livre de complicações e distrações secundárias”. Quando vivemos mais simplesmente, entramos em contato direto com a vida – em primeira mão e de modo imediato. Então, passamos a precisar de poucas coisas. É quando nos afastamos da participação direta e sincera da vida que o vazio e o tédio se insinuam. Nesse momento, começamos a buscar alguma coisa ou alguém que possa aliviar a insatisfação que nos atormenta. Contudo, essa busca é interminável, no sentido de que somos continuamente arrastados para longe de nós mesmos e das experiências do presente.

Ao mesmo tempo, ansiamos e tememos a proximidade com a vida. Queremos que nosso encontro com as outras pessoas seja genuíno, mas permitimos que o fingimento e a desonestidade permeiem nossos relacionamentos. Buscamos autenticidade no mundo que nos cerca, mas descobrimos que o milagre da nossa existência está coberto por camadas sucessivas de roupas modernas, cosméticos, modas efêmeras, convivências tecnológicas triviais, produtos descartáveis, formalidades burocráticas e outras coisas supérfluas, mas elegantes. Como podemos transpor essas camadas que obscurecem a autenticidade?

Foto: Ecovila Aldeia Arawikay/SC*

À medida que nós gradualmente dominamos a arte de viver, uma simplicidade conscientemente escolhida se manifesta como expressão desse domínio. Ela revela o verdadeiro caráter de nossa vida – como se raspássemos, lixássemos e encerássemos uma peça perfeita de madeira que permaneceu muito tempo oculta sob camadas de tinta. Com o objetivo de analisar em maior profundidade a grande relevância da simplicidade, abordarei sua expressão em três áreas diferentes: consumo, comunicação e trabalho.

Simplicidade e Consumo

A adoção da simplicidade em nossa vida exige que descubramos se aquilo que consumimos promove ou prejudica a nossa existência. Somente quando conseguimos distinguir claramente entre o que precisamos e o que queremos, poderemos começar a reduzir os excessos, encontrando o meio-termo entre esses dois extremos. Ninguém mais poderá alcançar esse equilíbrio para nós. Trata-se de uma tarefa que nós mesmos teremos de realizar. A indicação de uma simplicidade equilibrada é o fato de nossa vida se tornar mais clara, direta, menos falsa e complicada. Nesse momento, somos fortalecidos por nossas circunstâncias materiais e não enfraquecidos, tornando-nos alienados. O excesso em qualquer direção – ter muito ou pouco demais – se constitui num fator de complexidade. Se estivermos totalmente absorvidos pela luta pela subsistência ou, ao contrário, absorvidos na luta para acumular bens, nossa capacidade de participar sincera e entusiasticamente da vida será prejudicada.

Essa abordagem de vida (simples) e de consumo contrasta totalmente com a visão da era industrial, segundo a qual, se aumentamos nosso nível de consumo, aumentaremos nossa felicidade. Contudo, quando equiparamos nossa identidade com aquilo que consumimos – quando nos envolvemos no “consumo que determina a identidade” – passamos a ser possuídos por aquilo que possuímos. Somos consumidos por aquilo que consumimos. Nossa identidade não mais significa uma expressão livre e autêntica de nós mesmos, num determinado momento, mas uma máscara material que criamos com o objetivo de apresentar uma imagem mais atraente aos outros. A grandeza daquilo que somos é comprimida dentro de uma concha de pequenas dimensões. Quando acreditamos na falácia dos anúncios de publicidade, que tentam nos convencer de que “a pessoa é aquilo que consome”, iniciamos uma busca mal dirigida de uma experiência satisfatória de identidade.

Olhamos para além de nós mesmos, para a próxima coisa que nos fará felizes: um carro novo, um novo guarda-roupa, um novo emprego, uma nova casa, e assim por diante. Ao contrário de uma satisfação duradoura, encontramos apenas a gratificação temporária. Depois que essa gratificação inicial desaparece, temos de recomeçar – procurar pela próxima coisa que nos trará bem-estar. Se começássemos a perceber que nossa identidade é muito maior do que qualquer “identidade modelada”, até mesmo pelos mais opulentos níveis de consumo, a força que nos leva a alcançar a “identidade através do consumo” seria fundamentalmente transformada.  

A simplicidade consciente não é a negação de nós mesmos, mas a afirmação da vida. Uma vida simples, adotada voluntariamente, não se constitui em “simplicidade ascética”; ela é, antes, uma simplicidade estética. A terra não tem recursos suficientes ou capacidade de resistência ambiental para permitir que todas as pessoas consumam nos níveis atuais.

Precisamos de formas muito mais eficientes de desenvolvimento – marcadas pela frugalidade e pela integridade ecológica. A produção de alimentos, moradia, transporte, energia, e em diversas outras áreas de nossa vida, terá de ser diferente e criativamente adaptada, para que possamos sustentar o processo de desenvolvimento global no século 21. A simplicidade no viver tem uma enorme importância quando se trata desses desafios.

Próximos posts: “Simplicidade e a comunicação interpessoal” e “Simplicidade e trabalho”.

Trechos extraídos do livro Simplicidade Voluntária – Duane Elgin. Editora Cultrix – 1993.

*Foto: Ecovila Aldeia Arawikay/SC - site: http://www.ecoaldeia.org/

Nenhum comentário:

Postar um comentário