quinta-feira, 5 de abril de 2012

Simplicidade e Relações Humanas (Simplicidade Voluntária – Duane Elgin)

“O silêncio fala com uma eloquência incessante”
Ramana Maharshi

 
O nível de complexidade artificial que nossa vida atinge – pelo consumo excessivo - tem relação direta com a superficialidade das nossas relações e fragilidade dos nossos vínculos. Quanto mais nossa vida se enche de bugigangas, maiores são as barreiras para uma relação profunda e transparente. O encontro genuíno com o outro vai se tornando cada vez mais improvável. Criamos um círculo vicioso que consiste em “consumo – solidão – vazio – consumo”. As tecnologias digitais se tornam obsoletas com uma rapidez estonteante. Temos dois mil amigos nas redes sociais, estamos conectados com o mundo, mas nem por isso nos comunicamos de uma maneira mais verdadeira.  Como diz Duane Elgin, as coisas que consumimos nos consomem. E a comunicação, segundo o autor, é a segunda área que se beneficia quando simplificamos a vida conscientemente. A simplicidade nos coloca em contato com valores fundamentais na comunicação profunda: a coerência, a relevância, o silêncio, o olhar e o toque.
Sandra Felicidade

Simplicidade e a comunicação interpessoal*

Foto: Parque Ecológico Visão Futuro
A capacidade de comunicação encontra-se no centro da vida humana e da sociedade. Se não pudermos nos comunicar com eficiência, a própria civilização estará ameaçada. Quando aplicarmos o princípio da simplicidade às nossas comunicações, estas tendem a ser mais diretas, claras e honestas. Com relação a isso, considerem cinco áreas nas quais a simplicidade pode melhorar a qualidade da comunicação.

Coerência
Primeiro, comunicar-se mais simplesmente significa comunicar-se mais honestamente – é a ligação entre a nossa experiência interior e a nossa expressão exterior. A integridade, a autenticidade e a honestidade encorajam o desenvolvimento da confiança. A presença destas proporciona uma base para a cooperação, mesmo quando existem divergências. Através da cooperação, se estabelecem os fundamentos de uma vida de ajuda mútua. A simplicidade na comunicação, portanto, é vital para a criação de um futuro sustentável.

Relevância
Em segundo lugar, a simplicidade na comunicação envolve o fato de deixarmos de lado conversas inúteis. As conversas supérfluas podem assumir várias formas: tagarelice desatenta sobre pessoas e lugares que têm pouca relevância para o que está acontecendo no momento; citação de nomes, com o objetivo de elevar o próprio status social; uso de uma linguagem desnecessariamente complexa ou demasiado vulgar. Quando simplificamos a comunicação eliminando o que é irrelevante, colocamos naquilo que comunicamos mais importância, dignidade e intenção.

Silêncio
Terceiro, a simplicidade também se manifesta na comunicação que valoriza o silêncio. O sábio indiano Ramana Maharshi diz que o silêncio fala com uma “eloquência incessante.” Quando apreciamos o poder e a eloquência do silêncio, nossas trocas com outras pessoas adquirem mais concentração. A qualidade algumas vezes dolorosa ou incômoda que o silêncio produz em certas situações sociais é, creio, uma medida da disparidade entre nossa fachada social e nosso sentido mais autêntico do eu. Uma vez que nos sintamos à vontade para deixar que o silêncio assuma seu lugar na comunicação, criamos a oportunidade de nos expressar mais completa e autenticamente. A simplicidade no silêncio promove a dignidade, a profundidade e a expressão direta das ideias na comunicação.

Olhar
Em quarto lugar, a simplicidade também é expressa na comunicação por meio de um contato visual maior com as outras pessoas. Como os olhos têm sido chamados de espelho da alma, não é de surpreender que um contato mais direto dos olhos tenda a produzir uma comunicação em que se sente a presença da alma. Isso não significa forçar os outros com um olhar fixo, duro e exigente; ao contrário, podemos nos aproximar de nossos semelhantes com “olhos gentis”, delicados e acolhedores. Quando “vemos” outra pessoa diretamente, em geral ocorre um lampejo mútuo de reconhecimento. Emerson dizia como a pobreza, a riqueza, o status, o poder e o sexo são todos formas cujos véus caem diante do conhecimento dos olhos. O que é visto vai além de todas essas formas e rótulos, revelando a verdadeira essência daquilo que somos. 

Foto: Parque Ecológico Visão Futuro
Toque
Quinto, a simplicidade também pode ser exteriorizada na comunicação como uma maior abertura a um contato físico não-sexual. O abraço e o toque livres da manipulação sexual disfarçada são uma poderosa forma de comunicação integral e direta com os outros. Estudos mostraram que existe uma forte relação entre a aceitação do contato físico e uma tendência para a delicadeza de sentimentos. Para que aprendamos a viver juntos, como família global, temos também que aprender a nos tocar com menos violência física e psicológica.
  
Próximo post: “Simplicidade e trabalho”.

*Trechos extraídos do livro Simplicidade Voluntária – de Duane Elgin. Editora Cultrix – 1993.

Um comentário:

  1. Perfeito teus comentários. Vivemos em uma sociedade que pensa apenas em consumir, consumir e consumir.....ontem, na Sexta Feira(06/04/2012 - feriado), fui almoçar em um pequeno buffet por kilo anexo ao Big Xaxim - Curitiba, e olha, fiquei de boca aberta, com tanta gente. Tive muita dificuldade para encontrar um local para estacionar, nos enormes estacionamentos destes hipermercados. Parecia que o Mundo ia se acabar e as pessoas estavam se preparando para armezenar alimentos. Lamentável, mas respeito, pois outros valores estão sendo deixados de lado.

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