domingo, 6 de outubro de 2013

Não precisamos mais dos seus serviços

Qual é o preço que se paga por colocar a carreira no centro da vida? O filme "Amor sem escalas" explora os encantos e desencantos do mundo do trabalho e aborda essa questão. Ryan Bingham, interpretado brilhantemente por George Clooney, é um executivo de uma grande consultoria de recursos humanos. Seu trabalho consiste em assessorar grandes corporações na tarefa de demitir funcionários, os tais recursos humanos… "Missão” que ele cumpre com eficácia e satisfação, já que envolve uma rotina com viagens, hotéis, restaurantes, aeroportos, milhas… Enfim, o kit glamour completo.


O filme mostra o fascínio do mundo corporativo, o poder que ele empresta enquanto fazemos parte dele e a fragilidade a que estamos sujeitos quando a empresa decide: “Não precisamos mais dos seus serviços”. Cada personagem retrata um estágio no ciclo da vida corporativa e, para quem se interessa em assistir o filme com um olhar mais cuidadoso, surgem algumas questões para refletir: Que lugar a carreira ocupa na minha vida? Quanto minha identidade está vinculada à organização em que trabalho? Que preço que estou pagando nas outras dimensões da vida?


As expressões “vida profissional” e “vida pessoal” – tão usadas hoje em dia - levam a um autoengano. Quantas vidas nós temos? Uma pessoa que trabalha 14, 16 horas por dia só consegue ter uma vida, a profissional. Ela decide fazer da carreira o centro da vida. Os outros aspectos são periféricos e se ajustam em função dos objetivos profissionais. Não é uma questão de certo ou errado, é uma questão de escolha. O importante é saber o que há por trás dessa escolha e pra onde ela vai te levar.

A fase da vida na qual muitos investem intensamente na carreira é também a fase de consolidação de outros aspectos essenciais no desenvolvimento do ser humano. Além do autoconhecimento, frequentemente negligenciado, vínculos afetivos importantes se desenvolvem (ou não) na mesma fase em que a carreira está bombando. A má notícia é que a carreira não vai “bombar” a vida inteira. Se existe um universo no qual a obsolescência humana é certa, esse universo é o corporativo. Sempre aparece um chato com um MBA a mais e que fala mandarim. E, pior ainda, com a pilha novinha e crente que vai virar o CEO e ganhar o primeiro milhão antes dos 30, como prometem as revistas do mundo business.

Quando a carreira começa a entrar em declínio, só resta uma coisa a fazer: voltar para a “vida pessoal”. Difícil é descobrir que não há muita coisa por lá. Se não houve equilíbrio e investimento em outras dimensões da vida, não vai ter muita gente esperando quando voltarmos. Não há como curtir a infância dos filhos crescidos, nem como desfrutar de amizades que não foram cultivadas. A gente corre o risco de ouvir dessas pessoas o “não precisamos mais dos seus serviços” que tanto evitamos. A vida que fica é a vida na qual investimos. O perigo é que, assim como na vida de Ryan, haja pouca coisa para celebrar, além das milhas acumuladas.


Texto: Sandra Felicidade - Psicóloga; atua como consultora, coach e psicoterapeuta de base sistêmica e analítica. É autora de Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates.

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Trailer e foto: Up in the air (Amor sem escalas). Direção: Jason Reitman