sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Amanhã será tarde demais

O Manifesto da Transdisciplinaridade
Basarab Nicolescu

Quando nossa visão de mundo muda, o mundo muda.



Duas verdadeiras revoluções atravessaram o século XX: a revolução quântica e a  revolução tecnológica.





A revolução quântica poderia mudar radical e definitivamente nossa visão de mundo. E, no entanto, desde o começo do século XX (quase) nada aconteceu. Os massacres dos homens pelos homens aumentam sem cessar. A antiga visão (cartesiana) continua senhora deste mundo. De onde vem esta cegueira? De onde vem este desejo perpétuo de fazer o novo com o antigo? A novidade irredutível da visão quântica continua pertencendo a uma pequena elite de cientistas de ponta. A dificuldade de transmissão de uma nova linguagem hermética é, sem dúvida, um obstáculo considerável; porém não intransponível. 

A revolução tecnológica, que se desenrola diante de nossos olhos maravilhados e inquietos, poderia levar a uma grande liberação do tempo, a ser assim consagrado à vida e não, como para a maioria dos seres, à sobrevivência. Ela poderia levar a uma partilha de conhecimentos entre todos os humanos, prelúdio de uma riqueza planetária compartilhada. Mas aí também nada acontece. A visão de negócios apressa-se em colonizar o espaço cibernético e profetas incontáveis nos falam dos perigos iminentes.

O crescimento contemporâneo dos saberes não tem precedentes na história humana. Exploramos escalas inimagináveis até pouco tempo: do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, do infinitamente curto ao infinitamente longo. Como se explica que quanto mais sabemos do que somos feitos, menos compreendemos quem somos? Como se explica que a proliferação acelerada das disciplinas torne cada vez mais ilusória toda unidade do conhecimento?

Alguns dirão que a humanidade sempre esteve em crise e que sempre encontrou meios para sair dela. Esta afirmação já foi verdadeira. Hoje é uma mentira, pois pela primeira vez na história a humanidade tem a possibilidade de destruir a si mesma inteiramente, sem possibilidade de retorno. Esta destruição potencial de nossa espécie tem uma tripla dimensão: material, biológica e espiritual.

As armas nucleares acumuladas na superfície de nosso planeta podem destruí-lo completamente várias vezes. Ontem as armas eram guardadas por algumas potências; hoje passeia-se com suas peças desmontadas debaixo do braço, de um lado para outro do planeta. De onde vem a loucura humana e sua misteriosa e imensa capacidade de esquecer?

Pela primeira vez na história, o ser humano pode modificar o patrimônio genético de nossa espécie. Na falta de uma nova visão de mundo, deixar o barco correr equivale a uma autodestruição biológica potencial. Não avançamos nem um milímetro no que diz respeito às grandes questões metafísicas, mas nos permitimos intervir nas entranhas de nosso ser biológico. Em nome do quê?

Sentados em nossa cadeira, podemos viajar à velocidade da luz. O tamanho da Terra reduz-se progressivamente. Podemos criar uma realidade virtual, aparentemente mais verdadeira que a realidade dos nossos órgãos dos sentidos. Nasceu assim, imperceptivelmente, um instrumento de manipulação das consciências em escala planetária. Em mãos "erradas" este instrumento pode levar à destruição espiritual de nossa espécie. 

Esta tripla destruição potencial (material, biológica e espiritual) é produto de uma tecnociência cega mas triunfante, que só obedece à lógica da eficácia pela eficácia. Mas como pedir a um cego que enxergue?

Paradoxalmente, tudo está estabelecido para nossa autodestruição, mas tudo também está estabelecido para uma mutação positiva comparável às grandes reviravoltas da História. O desafio da autodestruição tem sua contrapartida na esperança do autonascimento. O desafio planetário da morte tem sua contrapartida numa consciência visionária, transpessoal e planetária, que se alimenta do crescimento fabuloso do saber. Não sabemos para que lado penderá a balança. Por isto é necessário agir com rapidez, agora. Pois amanhã será tarde demais. 

Extraído do livro O Manifesto da Transdisciplinaridade - Basarab Nicolescu. Triom.

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