quinta-feira, 24 de abril de 2014

Relações humanas e o propósito do trabalho

"No mundo do trabalho, corre-se o risco da fascinação por uma pseudo-realidade. 
Criamos tamanha cegueira interna que, ao final, 
perdemos a conexão com nossas próprias fontes
 de felicidade e evolução."
Herbert Steinberg


O trabalho cumpre uma função importante e complexa na vida das pessoas. Além de suprir nossas necessidades mais elementares, ligadas à sobrevivência, outros aspectos mais sutis e igualmente importantes estão em jogo. Independente do tipo de organização na qual ocorra, ele é feito em coletividade, em contextos que envolvem a relação com o outro. A própria realização do trabalho depende dessa interação. Num certo sentido, ele é um importante mediador das relações que se estabelecem entre as pessoas. Não seria esse o propósito maior do trabalho? 

Ao mesmo tempo, vivemos num paradigma que impõe às pessoas um nível crescente de dedicação à atividade profissional, muitas vezes em detrimento dos outros aspectos da vida. A carreira acaba sendo a principal referência na vida de uma pessoa, quando não é o único elemento gerador de identidade. As relações profissionais se tornam mais intensas e, muitas vezes, mais propensas ao desgaste e a tornarem-se estressantes.

Para ampliar a participação em mercados cada vez mais competitivos e agressivos, muitas organizações fomentam uma postura igualmente competitiva e agressiva entre seus colaboradores - a fim de que gerem resultados irreais e insustentáveis. Com isso, privilegiam profissionais cujo perfil evidencie disposição de dar prioridade absoluta à carreira e ao cumprimento de metas corporativas, mesmo que isso envolva abdicar da própria subjetividade e do reconhecimento da subjetividade do outro.

Nesse cenário, vemos profissionais altamente qualificados, mas que se deparam com grandes bloqueios quando lidam com a dimensão mais valiosa do trabalho: a relação com o outro. Muitos profissionais se limitam a desenvolver competências pessoais que gerem resultados para a organização e para a própria carrreira. O desenvolvimento de aspectos humanos só é considerado relevante quando se trata de alguma característica momentaneamente valorizada na cultura corporativa, como atributo estratégico para as metas da organização ou do mercado.

As pessoas exigem de si mesmas e dos colegas níveis cada vez mais elevados de desempenho - e desconsideram perigosamente o outro, como ser humano. Quem faz isso com o outro, fez antes consigo mesmo. Num contexto que favorece esse tipo de postura, vemos a crescente deterioração das relações, com efeitos na saúde emocional das pessoas e na qualidade do ambiente de trabalho.

Nosso contexto profissional pode nos trazer grandes oportunidades de desenvolvimento como seres humanos. A convivência diária com uma grande diversidade de pessoas é uma escola de relações humanas, onde exercitamos a comunicação, a cooperação, a tolerância, a empatia, a ética e tantos outros valores essenciais.

Os bloqueios que encontramos pelo caminho convidam a ativar nossos recursos e valores mais profundos. Podemos ingressar num nível que favorece interações conscientes e transformadoras. Justamente aí está a oportunidade redescobrir o propósito do trabalho.

Sandra Felicidade - Psicóloga - Consultora, coach e psicoterapeuta (sistêmica e junguiana). É autora do Relações em Jogo® e facilitadora do Jogo da Transformação® - credenciada pela InnerLinks Associates. Contatos: (41) 3503-6698 / (41) 9699-2665