domingo, 18 de maio de 2014

As paisagens mudam

Depois de uma longa conversa com meu travesseiro decidi voltar a morar em Curitiba. Após um período em Campinas, os ventos da mudança sopraram novamente e a terra de Paulo Leminski piscou pra mim.  Nas voltas da espiral da vida, já morei em várias cidades. Nasci em São Caetano do Sul, na grande São Paulo. Passei a maior parte da infância e da adolescência em São Paulo. Sampa do Caetano, da Ipiranga e avenida São João, da Paulista com aquele pulsar cosmopolita que eu gosto tanto.


Diz a lenda que morei um tempo em Brasília, quando era bem pequena, em função do trabalho do meu pai. Não lembro desse capítulo, mas vivi em Brasília nos primeiros anos da capital federal. Está lá em algum lugar do meu inconsciente. Brasília também era bem nova. Deve ter sido lá por 1966/67, quando eu tinha dois ou três anos. Lembro apenas do meu pai contando histórias de um tempo em que havia algum idealismo na política e do orgulho de ter sido testemunha de fatos históricos importantes. 


E as paisagens continuaram mudando. Tive um ensaio de vida rural quando meu pai decidiu sair de São Paulo e comprou um sítio perto de Jundiaí, em Várzea Paulista. O sítio virou loteamento, que virou bairro, que leva o singelo nome da minha avó: Jardim Felicidade. Adeus vida rural!


A época da faculdade chegou e me levou pra Campinas. Sou tão grata a esta cidade ensolarada que me trouxe coisas valiosas. Trabalho, independência e amigos de alma, que guardo do lado esquerdo do peito, dentro do coração. Em Campinas, vi Tom Jobim cantar Águas de Março e Arrigo Barnabé cantar Suspeito. Vi Legião no show As Quatro Estações. Na turma do gargarejo vi o intenso Renato Russo cantar Pais e Filhos: "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã". Fiz parte do coral da Orquestra Sinfônica de Campinas e cantei a 9ª Sinfonia de Beethoven: "Alle Menschen werden Brüder" (todos os homens são irmãos). E o mais importante, em Campinas nasceram meus três filhos, meus amores, que fazem de mim uma pessoa melhor.

Foto: Concerto com João Carlos Martins. Concha Acústica/Lagoa do Taquaral - Campinas
Quando eles ainda estavam bem pequenos, mudamos para Curitiba. Assim como eu não lembro de Brasília, eles não têm lembrança da vida em Campinas. Cresceram na capital paranaense e adoram esta cidade que proporcionou, entre tantas coisas, uma infância maravilhosa. O frio nunca foi problema. Mesmo no inverno, os esquimozinhos iam pra rua andar de bicicleta e brincar na casa da árvore com os amigos com quem cresceram. No frio extremo, o calor vem das pessoas, da brincadeira, do pinhão assando na fogueira.
Foto: Jardim Botânico / Curitiba - Sandra Felicidade


Foto: Parque Tanguá/Curitiba - Sandra Felicidade
Foto: Universidade Federal do Paraná - Sandra Felicidade
Foto: Bosque do Alemão/Curitiba - Trilha de João e Maria
Agora estou novamente em Curitiba. Mas, diz o sábio chinês*, que um homem não se banha no mesmo rio duas vezes. E é verdade. Mudamos nosso olhar e coisas novas se revelam. Estou apreciando esta cidade como se estivesse aqui pela primeira vez. Fico encantada com as coisas mais cotidianas. Acho que o verdadeiro encantamento é aquele que capta a preciosidade do que está ali, disponível. Minha vizinha veio me dar boas-vindas e se colocar à disposição para o que eu precisar. Outro vizinho terminou de fazer uma fonte no jardim, que ficou linda! Ele tornou a paisagem mais bonita e o som da água caindo o tempo todo é perfeito para uma meditação. A fonte é dele, mas a paisagem e o barulhinho foram socializados. O pôr do sol que vejo da sacada do meu quarto é um presente Divino com direito à pauta musical! Como diria Millôr, o pôr do sol é de quem olha. O sagrado está em toda parte. _()_

Foto: "meu" pôr do sol
Foto: Praça do Japão - Curitiba/PR
Foto: Praça do Japão - Curitiba/PR
A terra de Leminski é vibrante e repousante, na medida certa. Fui ver Zeca Baleiro com meu filho no Guairão. Na mesma quadra, no Guairinha, havia uma peça de teatro. Na outra esquina, no Teatro da Caixa, os Cariocas cantavam Chico. E esse menu cultural cercado de cafés simpáticos cheios de gente. A parte vibrante é essa intensa atividade cultural da cidade, dos bares e cafés aos teatros e museus. A parte repousante fica por conta dos parques lindos, do pôr do sol e do barulhinho da fonte do vizinho. Quando chegar o frio, um bom lugar pra ler um livro ou a boa conversa com os amigos. No frio extremo, o calor vem das pessoas, do vinho, do cappuccino, do papo cabeça e do papo furado. Acho que a Rita Lee captou bem o espírito da cidade na música Normal em Curitiba: "Quero o essencial da vida, quero ser normal em Curitiba."

Foto: Ópera de Arame/Curitiba - Simon Norfolk for The New York Times (A nave)
Foto: Parque Barigui/Curitiba - Eloá Andreassa
Foto: Paço da Liberdade/Curitiba
Uma amiga, que hoje vive em Floripa, diz que a cidade ideal muda ao longo da vida. As paisagens mudam. Em cada momento da vida, o espírito pede uma paisagem. E neste momento, minha alma agradece e aprecia o essencial da vida.

Sandra Felicidade

*Do I Ching (1100 a. C.) a Lulu Santos, passando por Sidarta Gautama (Buda) e Heráclito, vários pensadores acessaram esse arquétipo da impermanência: Tudo muda o tempo todo no mundo... ;)

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