quinta-feira, 1 de maio de 2014

O Poder da Aldeia

"As aldeias surgem quando prestamos atenção ao redor e estabelecemos relações positivas com outros seres."
Padma Samten

Festa na Vila - Ana Maria Dias
Esses dias li uma matéria falando sobre o risco de um colapso na internet e da nossa vulnerabilidade, uma vez que fomos aos poucos deixando de nutrir a vida em comunidade, seduzidos pelo fascínio do mundo virtual. Ainda que isso nunca aconteça, fica o alerta: se um dia, por qualquer razão, houvesse um apagão da internet, quais seriam as redes humanas reais na vida de cada um de nós?

Não acho tão improvável que isso aconteça e de certa forma penso que a Internet é uma espécie de brinquedo. A gente pode se distrair um pouco com ela e fazer coisas interessantes. Mas a época do encantamento acabou e os perigos já estão bem expostos também.

Um dos perigos é a perda de contato humano real. Estamos desaprendendo habilidades humanas fundamentais. Uma delas é a da vida em comunidade. A vida em aldeia, tão ancestral, tão importante e tão essencialmente humana. Tenho a felicidade de fazer parte de uma aldeia onde compartilhamos ideias, sentimentos, visões. Faço parte de um grupo de terapeutas, amigos evolutivos, e nos reunimos regularmente para alimentar o espírito. Em um de nossos encontros, uma das integrantes compartilhou um texto do Padma Samten que fala sobre o poder da aldeia. A ideia de aldeia trouxe grande inspiração para nossa roda de conversa e reproduzo abaixo um trecho: 

As Aldeias*


A característica central de uma aldeia é que os seres veem uns aos outros e entrelaçam positivamente suas vidas. Entrelaçam também com os rios, árvores, plantas e animais que possibilitam suas vidas, com a terra e o céu que seus antepassados também fitaram.

O foco em metas estreitas faz desaparecer a aldeia. Bolhas de realidade surgem e impedem o contato entre as pessoas. Um condomínio não é uma aldeia. Seres apressados, focados em mundos específicos, mal se cumprimentam nos elevadores de manhã. Seguem para o tráfego onde a presença do outro é sentida como obstáculo a ser vivido a cada dia. Mesmo as crianças vivem assim. 

Um bairro de periferia não é uma aldeia. As soluções para as pessoas parecem vir do emprego ao longe, para onde se deslocam penosamente a cada dia, mudas, apertadas, sem olhar para os outros, tentando nem tocá-los, vulneráveis. Não há tempo nem razão para ver mais amplo.

Quando o centro sutil das atividades, a inteligência que tudo move, não é de uma aldeia, mesmo pais, mães e filhos têm seus olhares presos a seus mundos individuais particulares. Fixados em suas bolhas estreitas, miram crispados e frágeis celulares e tablets, sem espaço para incluir os outros em suas vidas. 

As aldeias, criadas pelo olhar atento ao que acontece ao redor, e que buscam estabelecer redes de ações positivas com as outras pessoas e com os seres da natureza, produzem felicidade e estabilidade onde quer que se manifestem. Mais ainda se for em lugares com regatos murmurantes e cristalinos, cachoeiras, pássaros coloridos, bandos de borboletas, ar perfumado e crianças que brincam.

Padma Samten
Lama budista. Fundou e dirige o Centro de Estudos Budistas Bodisatva, em Viamão/RS.

Então, você tem uma aldeia pra chamar de sua? Você saberá como recriar uma aldeia se o nosso simulador de vida comunitária desaparecer? As redes sociais, simuladores de aldeia, ensinaram a curtir e compartilhar, e a adicionar alguém que a gente nem precisa estabelecer relação de fato.

O estilo de vida individualista e competitivo faz a gente perder o sentimento de conexão e pertencimento. Como escreve Padma Samten, olhamos o tempo todo para uma tela que nos conecta com o mundo, mas não sabemos mais olhar nos olhos. Estamos nos desconectando de nós mesmos e do outro.

Na capacidade de olhar para o outro e reconhecer aquilo que nos liga está nossa esperança de criar uma nova rota como humanidade. Talvez nosso próximo salto evolutivo seja reaprender a viver em aldeia.

Sandra Felicidade

*Fonte: Revista Vida Simples - Edição Abril/2014 - página 60.

Veja também: 

“A Internet virá abaixo e viveremos ondas de pânico” - Dan Dennett, respeitado filósofo norte-americano, avalia as repercussões de uma queda total da rede no mundo digital. Disponível em:
http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/25/tecnologia/1395776953_258137.html

O colapso de tudo: os eventos extremos que podem destruir a civilização a qualquer momento. - John Casti - Ed. Intrínseca
http://www.livrariacultura.com.br/imagem/capitulo/30367570.pdf

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