quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Política


Seu Urbano, fina estampa.
Anos 50

Aprendi com meu pai a não discutir política partidária, e sim viver com uma postura política congruente com meus valores. Ele deixou a política partidária depois de muitos anos de intensa luta e inúmeras desilusões. Não ocupou cargo eletivo, mas foi muito atuante e presenciou momentos históricos importantes (e seus bastidores). Quando eu era criança, muitas vezes vi chegarem em casa vários homens em seus ternos com diferentes tons de cinza, que ficavam conversando horas. Eu não entendia nada e achava aquilo tudo chatíssimo. Só via que meu pai se exaltava muito, sempre indignado gesticulando o tempo todo. Eu achava que era uma briga, mas depois fui entendendo que era uma forma de conversar. Todos faziam isso como forma de prevalecer na situação.

Ele sempre dizia que a política, como está estruturada, serve a dois propósitos: ficar no poder ou voltar ao poder. Para isso todo tipo de aliança é justificável. O inimigo da campanha passada é o maior aliado nesta. Nenhum constrangimento. É um jogo de conveniência com regras bem conhecidas. Para qualquer posição partidária que alguém queira adotar e defender (nós eleitores, inclusive) é possível construir um razoável conjunto de argumentos. Sempre é possível encontrar um podre enorme do adversário do momento, mas que será facilmente relevado na próxima eleição, se ele for um aliado. Sem ressentimentos. 

Seu Urbano tecendo uma colcha em Nazaré.
Anos 80
Quando perguntavam ao meu pai porque ele deixou a política, ele respondia: “estou enojado.” Por outro lado, ele permaneceu disponível quando alguém buscou sua opinião - e continuou, como cidadão, a fazer política, a ter uma postura atuante e a fazer diferença no seu pequeno raio de ação. Mas ele nunca mais caiu na armadilha de ficar em inflamadas discussões partidárias, porque ele sabia muito bem como esse jogo todo é orquestrado nos bastidores. Então ele já me economizou uma energia enorme porque eu não entro em discussão sobre partido. 

Ainda não sei em quem vou votar, mas certamente será em quem menos insultar a minha inteligência. Espero que cada um faça o mesmo e fique em paz com sua escolha. No mais, acredito que o que muda a sociedade é a mudança do ser humano. É o respeito pela opinião do outro, é a congruência entre discurso e prática. Tem a ver com a forma como eu vivo em sociedade e estabeleço relação com o outro. No uso dos "recursos" do planeta (cada vez mais escassos), no cuidado com o que é público. Na forma como eu trato meu vizinho, meu colega de trabalho, o porteiro, a caixa do supermercado. Como eu educo meus filhos. No cuidado em todas as dimensões da vida. Isso é política. A gente faz dentro de casa (sem precisar bater em panela) e quando cruza a porta da rua.

Reflexões - Urbano Lopes da Silva
publicado em 1952

A propósito, meu pai fez isso. Nasceu em 1925, em Belém do São Francisco/PE. Foi criado somente pela mãe, dona Felicidade, uma pernambucana arretadíssima. Foi um autodidata. Montou uma biblioteca em casa*, era nosso Google. Lia e escrevia o tempo todo. Tinha uma cultura vasta e conversava sobre política, economia, filosofia, religião e teosofia com qualquer pessoa. Era um contador de causos e tinha um repertório vastíssimo. Criou cinco filhos e assegurou que todos tivessem curso superior. Nos dias de eleição, ia solene votar de terno e gravata. Lembrava bem o que é não poder votar. Mas nunca esperou que a solução da sua vida (ou do país) viesse de algum partido político. 

Sandra Felicidade

*Boa parte dos livros foi doada para as bibliotecas da PUCCAMP e da UFSCar.