quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Liderar a partir do futuro que emerge

Um sopro de vida num sistema agonizante*


Finanças. Alimentos. Combustíveis. Escassez de água. Escassez de recursos. Caos climático. Bilhões de pessoas vivendo na pobreza. Migração em massa. Fundamentalismo. Terrorismo. Oligarquias financeiras. Entramos na Era da Desestabilização. Por outro lado, a possibilidade de uma profunda renovação pessoal, social e global nunca foi mais concreta. A hora é agora.


Este nosso momento de desestabilização implica morte e renascimento. O que está morrendo é uma antiga civilização e uma mentalidade do "eu" maximizado - o máximo consumo material, a noção de que quanto maior, melhor e um processo decisório orientado por grupos de interesse que nos levou a um estado de irresponsabilidade organizada, criando coletivamente resultados que ninguém quer.

O que está nascendo é menos claro, mas de maneira alguma menos importante. É algo que podemos sentir em muitos lugares por todo o planeta Terra. Estamos falando de um futuro que não se restringirá a apagar incêndios e promover meros ajustes superficiais na mudança estrutural. Não estamos falando de substituir uma mentalidade que deixou de nos beneficiar por outra, mas sim de um futuro que requer um nível mais profundo da nossa humanidade, de quem realmente somos e do que queremos ser como sociedade. É um futuro que podemos perceber, sentir e concretizar promovendo uma transformação do lugar interior a partir do qual nós operamos. É um futuro que, na presente Era da Desestabilização, começa a se fazer presente por meio de nós.

Hoje, essa transformação interior - de combater o antigo a sentir e presenciar uma futura possibilidade emergente - ocupa um lugar no centro de qualquer profundo trabalho de liderança. Trata-se de uma mudança que requer a expansão do nosso foco: da cabeça para o coração. É uma transição de uma conscientização egossistêmica que só se importa com o próprio bem-estar para uma conscientização ecossistêmica, que leva em consideração o bem-estar de todos, inclusive o próprio bem-estar. O prefixo eco tem origens na palavra grega oikos, que quer dizer "a casa toda". A palavra economia remonta dessa mesma raiz.

Transformar a nossa atual economia egossistêmica em uma economia ecossistêmica implica reconectar o pensamento econômico à sua verdadeira raiz, que é o bem-estar da casa toda e não o bem-estar ou o lucro de apenas alguns de seus habitantes. No entanto, embora a "casa toda", para os gregos antigos, tenha sido uma noção bastante local, hoje o termo também diz respeito ao bem-estar das nossas comunidades globais e ecossistemas planetários.

Estamos nos aproximando dessa transformação da conscientização, do egossistema ao ecossistema, e vivenciando essa mudança não apenas como grupos e organizações mas também como uma comunidade global. Criar e implementar os princípios e práticas pessoais que nos ajudarão nessa transição pode muito bem constituir uma das realizações mais importantes da nossa era.


Otto Scharmer

*Introdução do livro Liderar a partir do futuro que emerge - Otto Scharmer - Ed. Campus.  

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