quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Simples, pequeno e local


Nas últimas décadas vimos grandes transformações no mundo, geradas principalmente pela internet, pela alucinante evolução tecnológica e pela globalização. Todos esses fenômenos estão diretamente ligados – um é determinante do outro. Nossa vida tem sido fortemente afetada por essa realidade, para o melhor e para o pior. A questão é que a rapidez com que as coisas mudam e a forma como nos afetam têm uma consequência insidiosa.  O gigantismo próprio de um mundo globalizado tem um fascínio e ele vai silenciosamente tirando o poder de decisão das pessoas e das comunidades. Vai reduzindo a vitalidade e a criatividade do que é local. Vivemos a síndrome do sapo cozido. Estamos imersos em uma realidade artificial e vamos nos acostumando a ela e aceitando como "natural" o que deveria ser avaliado e adotado com muito discernimento. 

A globalização e as tecnologias nos permitem ter acesso ao que seria impensável antes. Isso é muito interessante e abre possibilidades pessoais, profissionais e comerciais muito amplas. O que nós não percebemos é que a outra face dessa realidade é estarmos totalmente dependentes de megaestruturas “sem rosto”, virtuais, poderosíssimas e absolutamente voláteis. Elas podem se transformar e até mesmo desaparecer instantaneamente se não for mais conveniente mantê-las nessa lógica perversa da economia global. Isso pode parecer muito macro, mas afeta nossa vida de forma muito direta. Quem já não passou pelo descaso da empresa de telefonia quando precisou fazer uma reclamação ou quis mudar de plano? Ou pior, quando precisou recorrer ao plano de saúde numa situação grave e foi tratado com frieza e impessoalidade. Muitas vezes, o máximo que conseguimos é o atendimento de uma gravação dizendo: “Não desligue, sua ligação é muito importante pra nós”. Quem está do outro lado da linha? Nunca tivemos tecnologias tão sofisticadas e nunca estivemos tão vulneráveis e solitários. Esse é o preço do gigantismo. 

Nós já estamos no ponto em que o encantamento passou e começamos a sentir as consequências. Nossa missão é acolher os benefícios da realidade virtual no que ela pode contribuir para a vitalidade e o fortalecimento da nossa comunidade imediata. Lembrando que fortalecer a comunidade não é criar uma redoma; ao contrário, comunidades saudáveis são permeáveis, mantêm intercâmbios e fazem trocas. Vivem e celebram a diversidade. A cultura e a economia da nossa “aldeia” são a nossa grande fonte de segurança, principalmente num momento desafiador como o que estamos vivendo. O caminho é recuperar o senso de comunidade, comprar no comércio do bairro, prestigiar o artista/artesão local, criar parcerias inteligentes com os “pequenos” que vivem realidades semelhantes, consumir conscientemente produtos locais confeccionados ou cultivados de forma humana e sustentável.

Com a complexidade do mundo virtual e globalizado, esquecemos o valor do simples, do pequeno e do que é local. Nossa vida não acontece na internet, ela acontece na vizinhança, na padaria onde se compra o pão quentinho, no comércio do bairro onde o dono sabe seu nome e suas preferências, no grupo de mães e pais que coopera no transporte das crianças pra escola, no pessoal que se organiza pra fazer uma horta orgânica. Nossa capacidade de superar os desafios depende principalmente de nutrirmos a vida em comunidade. A simplicidade é a resposta mais revolucionária que podemos dar ao mundo mecanizado e complexo em que vivemos - e ela é a chave para uma nova humanização. É hora de resgatar o valor do simples, pequeno e local.


Sandra Felicidade
Psicóloga, consultora e terapeuta. 
(41) 9699-2665 ou sfelicidade.psi@gmail.com

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Hora de Despertar - Alan Watts

Como conseguimos escapar da hipnótica forma de caminhar pela vida? Quando ficamos presos ao estilo de vida mecânico, de simplesmente cumprir compromissos e realizar tarefas, vamos perdendo o contato com quem realmente nós somos. Ficamos reduzidos a papeis sociais e engolidos pela síndrome de insuficiência. Sempre teremos a impressão de que nos falta algo. Sempre teremos um sentimento de estar aquém das exigências do mundo, de performance e resultados. Nesta animação, Alan Watts mostra que podemos ir para um outro nível de consciência, de onde é possível ver a si mesmo de outra forma. É possível adotar uma postura mental estável que permite observar o mundo e não ser engolido por ele - e, principalmente, desenvolver a auto-observação. Com isso conseguimos resgatar nossa integridade e passamos a ter outra qualidade de presença a todo momento. 


Hora de Despertar (Time to wake up) - Alan Watts
Animação: Alec Farai
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=quBA3sLzogY&list=PL0XR8Pa0TpRsugXhzOVE7F26RCqotu6Il

A respiração e a emoção

"Quanto mais ampla a respiração de um ser humano, 
mais rica sua realidade. Se você quiser mudar seu destino, 
trabalhe a sua respiração... Dedique tempo à respiração."
Stefano Elio D'Anna


A força da respiração está na sua urgência. A respiração é a única função fisiológica urgentemente necessária - sempre - em todos os instantes. É a única pressão instintiva continuamente atuante. A necessidade de respirar faz parte de todo e qualquer aqui/agora. O primeiro dos instintos do "eu" ligado à conservação do indivíduo é a respiração. O instinto respiratório é o de tempo de frustração menor de todos; podemos ficar muitas horas ou dias sem comer, sem beber, sem dormir, sem prestígio, sem mamãe ou sem amor. Mas não podemos ficar mais do que alguns segundos sem respirar. 

Quando a respiração fica diretamente prejudicada nós sentimos angústia. A respiração está no centro da angústia - em função da sua urgência constante, do seu tempo mínimo de frustração e da facilidade com que desperta em nós reações arcaicas quando frustrada. Quanto menos respiro, mais me contraio e imobilizo (adrenalina); quanto mais me contraio e imobilizo, menos respiro. Ao mesmo tempo vai ocorrendo uma mudança importante no estado de consciência: as funções corticais mais finas e seletivas, assim como as funções cerebelares mais precisas do controle muscular ficam lesadas. 

Quando nos damos conta da importância da respiração para o indivíduo e nos habituamos a observá-la, a todo instante nos surpreenderá a má respiração da maioria das pessoas, o quanto são numerosas as paradas respiratórias. 

Ao invés de observar diretamente a respiração, podemos observar a maneira de falar das pessoas. Com frequência, mostram elas um tom de voz monótono, exprimindo fatos de valor subjetivo os mais variados, dentro da mesma pauta musical de voz. Basta este indício para se poder supor a repressão maciça de toda a vida emocional. Voz constantemente de vítima, voz de explicações (de quem pede desculpas), voz autoritária, voz lamurienta, doce, amarga...

Quando a respiração está livre, há muita variação de tom, de música, de ritmo e de maneira de falar, conforme o assunto tratado, conforme a recordação, conforme o momento vivido, o ouvinte, e tudo mais.

A monotonia expressiva da voz é um 
sintoma seguro de inibição respiratória.

A maior parte das pessoas tem uma tonalidade dominante na voz, de vítima, de interrogação, de explicação, de desafio, ou do que seja. Só os atores treinam muitas vozes, e só pessoas bem presentes ao que dizem mudam de voz ao mudar de assunto. Esta mudança é um sinal de respiração desimpedida. 

As pessoas não têm praticamente noção de como respiram, nem de como falam (do tom de voz). Como então poderão compreender o efeito que causam?

Se a respiração tem essa importância, torná-la consciente é a tarefa mais importante do trabalho psicoterápico, quando se acredita que este trabalho consiste em "tornar consciente o inconsciente". Trata-se de levar a respiração à consciência, de mostrar para o indivíduo que sua respiração é um componente importante da sua vida mental, que todas as suas palavras têm um equivalente respiratório, que suas frustrações respiratórias geram angústia muito rapidamente. De muitas maneiras estamos perturbando nossa respiração muitas vezes ao dia, quando suprimimos pensamentos, gritos, lágrimas, sentimentos e impulsos.

É preciso ficar claro que a respiração 
está presente a tudo o que acontece conosco. 

Se estou ameaçado de asfixia, não posso pensar nem fazer outra coisa antes de respirar. Basta aceitar que o primeiro dos nossos hábitos é o respiratório, basta aceitar que ele se faz o modelador do eixo primário do 'eu" e então veremos que modificar a respiração - o modo de falar - é modificar a personalidade inteira. 

Trecho do livro  Respiração e Circulação - José Ângelo Gaiarsa - Ed. Brasiliense - 1987.