sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A respiração e a emoção

"Quanto mais ampla a respiração de um ser humano, 
mais rica sua realidade. Se você quiser mudar seu destino, 
trabalhe a sua respiração... Dedique tempo à respiração."
Stefano Elio D'Anna


A força da respiração está na sua urgência. A respiração é a única função fisiológica urgentemente necessária - sempre - em todos os instantes. É a única pressão instintiva continuamente atuante. A necessidade de respirar faz parte de todo e qualquer aqui/agora. O primeiro dos instintos do "eu" ligado à conservação do indivíduo é a respiração. O instinto respiratório é o de tempo de frustração menor de todos; podemos ficar muitas horas ou dias sem comer, sem beber, sem dormir, sem prestígio, sem mamãe ou sem amor. Mas não podemos ficar mais do que alguns segundos sem respirar. 

Quando a respiração fica diretamente prejudicada nós sentimos angústia. A respiração está no centro da angústia - em função da sua urgência constante, do seu tempo mínimo de frustração e da facilidade com que desperta em nós reações arcaicas quando frustrada. Quanto menos respiro, mais me contraio e imobilizo (adrenalina); quanto mais me contraio e imobilizo, menos respiro. Ao mesmo tempo vai ocorrendo uma mudança importante no estado de consciência: as funções corticais mais finas e seletivas, assim como as funções cerebelares mais precisas do controle muscular ficam lesadas. 

Quando nos damos conta da importância da respiração para o indivíduo e nos habituamos a observá-la, a todo instante nos surpreenderá a má respiração da maioria das pessoas, o quanto são numerosas as paradas respiratórias. 

Ao invés de observar diretamente a respiração, podemos observar a maneira de falar das pessoas. Com frequência, mostram elas um tom de voz monótono, exprimindo fatos de valor subjetivo os mais variados, dentro da mesma pauta musical de voz. Basta este indício para se poder supor a repressão maciça de toda a vida emocional. Voz constantemente de vítima, voz de explicações (de quem pede desculpas), voz autoritária, voz lamurienta, doce, amarga...

Quando a respiração está livre, há muita variação de tom, de música, de ritmo e de maneira de falar, conforme o assunto tratado, conforme a recordação, conforme o momento vivido, o ouvinte, e tudo mais.

A monotonia expressiva da voz é um 
sintoma seguro de inibição respiratória.

A maior parte das pessoas tem uma tonalidade dominante na voz, de vítima, de interrogação, de explicação, de desafio, ou do que seja. Só os atores treinam muitas vozes, e só pessoas bem presentes ao que dizem mudam de voz ao mudar de assunto. Esta mudança é um sinal de respiração desimpedida. 

As pessoas não têm praticamente noção de como respiram, nem de como falam (do tom de voz). Como então poderão compreender o efeito que causam?

Se a respiração tem essa importância, torná-la consciente é a tarefa mais importante do trabalho psicoterápico, quando se acredita que este trabalho consiste em "tornar consciente o inconsciente". Trata-se de levar a respiração à consciência, de mostrar para o indivíduo que sua respiração é um componente importante da sua vida mental, que todas as suas palavras têm um equivalente respiratório, que suas frustrações respiratórias geram angústia muito rapidamente. De muitas maneiras estamos perturbando nossa respiração muitas vezes ao dia, quando suprimimos pensamentos, gritos, lágrimas, sentimentos e impulsos.

É preciso ficar claro que a respiração 
está presente a tudo o que acontece conosco. 

Se estou ameaçado de asfixia, não posso pensar nem fazer outra coisa antes de respirar. Basta aceitar que o primeiro dos nossos hábitos é o respiratório, basta aceitar que ele se faz o modelador do eixo primário do 'eu" e então veremos que modificar a respiração - o modo de falar - é modificar a personalidade inteira. 

Trecho do livro  Respiração e Circulação - José Ângelo Gaiarsa - Ed. Brasiliense - 1987.

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