sábado, 19 de dezembro de 2015

2015 e o Feitiço do Tempo


No filme O Feitiço do Tempo, Phil Connors, personagem vivido por Bill Murray, é um repórter que vai fazer a cobertura do “Dia da Marmota”, um evento de uma pequena cidade nos Estados Unidos. Ele vai contrariado, faz a reportagem de mau humor, louco pra terminar tudo e sair dali. Só que ele fica preso na cidade por causa da nevasca e, pior ainda, fica preso no tempo. Todas as manhãs o despertador toca e ele está no mesmo dia, todas as coisas precisam ser vividas novamente. Ele encontra as mesmas pessoas, tem os mesmos diálogos, enfia o pé no mesmo buraco, tudo igual. Inicialmente ele começa a tirar proveito da situação. Só que essa repetição vai evidenciando as características mais negativas de Phil: arrogância, vaidade, oportunismo, preconceito, manipulação, teimosia. Aos poucos sua atitude começa a mudar e ele passa a perceber a oportunidade que existe em cada encontro. As mesmas situações geram novas experiências.

Esse filme dos anos 90 é genial e vale a pena assistir novamente. Embora pareça uma comédia despretensiosa, o filme é baseado nas ideias do filósofo e psicólogo russo P. D. Ouspensky (1878 – 1947) – que defendia a teoria da eterna recorrência: nós continuaremos passando pelas mesmas situações até que nosso nível de consciência mude e a gente comece a ter outra atitude diante da vida.

Feitiço do tempo - disponível em https://www.youtube.com/watch?v=zi8d69P9NvI

Parece que o ano de 2015 está sendo nosso Ano da Marmota, ou seja, parece que estamos vivendo a repetição do personagem do filme. Todo mundo tem falado dos desafios deste ano, no Brasil e no mundo, e parece mesmo estar sendo o ano que condensou tudo o que não está resolvido, individual e coletivamente. Tudo está sendo visto com um zoom: modelo econômico perverso, colapso ambiental, tensões sociais, racismo, preconceito de toda ordem, corrupção, sistema político falido, extremismos, manipulação da mídia, intolerância. Estamos praguejando contra 2015, mas ele está só refletindo tudo aquilo que nós ainda não compreendemos. Todos os grandes desafios da humanidade se intensificaram e mostraram seu caráter sistêmico.

Recentemente, o Papa Francisco declarou que as festividades do Natal são uma falsidade e não refletem o que nós estamos vivendo, porque ainda não encontramos o caminho da paz. O Dalai Lama disse algo parecido, não faz sentido orar por Paris. Nós criamos essa confusão toda em que o mundo está metido. Não faz sentido orar para que Deus resolva problemas que a humanidade insiste em manter. Isso é falsidade.

Estamos na repetição descrita por Ouspensky. As coisas vão se repetindo e a gente precisa lidar com isso. Assim como a repetição de Phil mostrou, enquanto a atitude não muda a experiência não muda.  Mas a experiência dele também mostrou que o Dia da Marmota é o ponto de mutação. É a oportunidade de dar um salto de consciência.

Cada um sabe quais são as situações pessoais que estão se repetindo. Quais são os padrões recorrentes, no trabalho e nas relações interpessoais. Existe um tesouro escondido aí. Quando a gente cai no buraco pela primeira vez, a resposta mais fácil é ficar com raiva e encontrar um culpado. Isso pode acontecer algumas vezes. Muitas vezes. Nada muda. Nenhum aprendizado. Mas um dia a gente começa a perceber que está caindo no mesmo buraco e não dá mais pra culpar o outro. Essa é uma grande mudança. 

No Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Sogyal Rinpoche fala sobre cair no mesmo buraco várias vezes. Com o tempo, diz ele, é possível perceber o buraco e desviar dele. Até que um dia você decide ir por outra rua e o buraco não está mais no seu caminho. Talvez o próximo passo seja fechar o buraco definitivamente (consciência), pra que ninguém mais precise cair nele. Quem sabe 2015 seja o ano dessa compreensão. O ano ainda não terminou e ele pode deixar uma ótima semente para 2016. 

Abraços
Sandra Felicidade

Um comentário:

  1. Excelente a sua reflexão sobre o tempo e a necessidade de se rever o passado com a mente aberta, para que a gente possa evitar nossos próprios erros no futuro. Gostei muito de sua referência ao filme "Feitiço do Tempo" - um dos meus prediletos. Já o vi três vezes e agora, depois de ler o seu blog, me deu vontade de vê-lo de novo. Que o ano de 2016 nos traga muitas experiências novas e criativas, que nos ajudem a sair deste buraco de 2015.

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