quarta-feira, 9 de março de 2016

Minha Boneca Waldorf Articulada

Consumismo e Criatividade: lições da boneca Waldorf


Há algumas semanas realizei meu sonho de aprender a confeccionar uma boneca Waldorf. Sabia que seria muito mais do que simplesmente aprender a fazer uma boneca. E foi mesmo. A experiência me fez pensar sobre a importância do fazer com as mãos. Um valor esquecido num mundo que define pessoas pelo poder de compra. As coisas estão prontas nas prateleiras e vitrines, basta comprar. E o que está pronto para ser consumido cobra um preço muito maior do que o seu valor monetário. Tira de nós a criatividade. De alguma forma fomos aprendendo que é melhor comprar do que fazer. Criar é uma atividade arriscada, é mais seguro consumir. Não é à toa que adotamos com naturalidade o termo “sociedade de consumo” e que ninguém considera uma ofensa ser chamado de consumidor. Nossa capacidade de criar ficou adormecida. Quantas vezes eu ouvi pessoas dizerem com resignação que não são criativas. Aceitamos a ideia de que criatividade é um dom de alguns poucos privilegiados, os artistas e os escritores. As pessoas comuns precisam lutar para ter um bom emprego (que não exija nem estimule a criatividade) e assim podem comprar o mundo que é vendido pronto nas prateleiras.


Nossa oficina de confecção de bonecas começou na sexta-feira. O local, um espaço de coworking todo colorido e lúdico. Nosso ambiente de criação, uma sala ampla, cheia de desenhos nas paredes e janelas enormes que deixavam o verde da rua entrar. Nossa mestra bonequeira, Nina Veiga, nos recebeu na porta da sala com um abraço e uma saudação individual: “Que bom que você está aqui.” Foi assim nos três dias. Já no início ela lançou uma provocação: “Quem faz corre riscos. Não há garantia nenhuma, pode dar tudo errado.” Enquanto ela dizia isso olhei para o meu material: pedaços de arame, fita crepe, lãs, algodão, tecidos, linhas e agulhas de vários tamanhos. Até domingo isso tudo tem que virar uma boneca. Não há garantia nenhuma, pode dar tudo errado. Ainda bem que ela já avisou, pensei. Mas estou aqui e vou correr o risco.

Estrutura e Flexibilidade


Cada etapa da confecção da boneca é acompanhada de uma reflexão sobre o elemento que está sendo trabalhado e seu significado. Um ponto fundamental é o uso do arame e a função que ele tem. É ele que deixa a boneca (ou boneco) firme e permite que ela seja articulada, que possa assumir diferentes posições. Estrutura e flexibilidade - as duas coisas precisam existir como condição para a articulação. Eu mal tinha conseguido torcer e prender os arames e já conseguia ver uma estrutura ali. Se você não cuida dos detalhes dessa fase, não terá sustentação para os elementos que vêm depois. Se a articulação é uma qualidade interessante para uma boneca, imagine para uma pessoa. Uma pessoa articulada tem desenvoltura e flexibilidade mental para fazer novas associações e criar novas experiências. A vida se torna criativa e ganha plasticidade. Aqueles pedaços de arame retorcidos estavam me ensinando algo e eu estava achando tudo muito interessante. 




Cada parte tem um correspondente simbólico importante. O centro é o coração que recebe um cuidado especial. Ele une pernas, braços e cabeça. A união entre fazer e pensar a partir do coração, o centro da Coragem. O recheio vai criando o corpo da boneca. Várias camadas de lã de carneiro envolvem o arame e dão forma ao corpo da boneca. Nessa etapa o fantasma do "pode dar tudo errado" já foi superado. Alguma coisa já deu certo, fiz um corpo e isso não é pouca coisa. A pele é a fronteira com o mundo e um elemento importante de relação e troca. Precisa proteger, mas também precisa ser flexível e permeável. Nossa mestra bonequeira repetiu muitas vezes: "as forças do mundo nos atravessam o tempo todo; precisamos de proteção tanto quanto precisamos de permeabilidade para que essas forças possam nos transformar – e nós a elas." (adorei isso!) Precisamos ter “poros” na relação com o mundo. Havia muitas opções de tons de pele. Diferente da padronização das bonecas vendidas na loja, fazer uma boneca permite expressar a beleza da diversidade. A sensação tátil produzida por uma boneca feita à mão é muito diferente do contato com uma boneca industrializada. Uma boneca é um brinquedo carregado de experiências de afeto, mais do que outros brinquedos. Então a sensação tátil é um aspecto muito importante. Se estamos falando de experiências de afeto, vale enfatizar que bonecas e bonecos são brinquedos para c r i a n ç a s - meninas e meninos - e para adultos. Sou apaixonada por bonecos e eles são a alma do meu trabalho com jogos de tabuleiro. 

Quando chegamos na cabeça a coisa ficou ainda mais interessante e desafiadora. Nina explicou que a boneca tem fisionomia, mas não tem expressão – e isso tem fundamentos importantes dentro da Pedagogia Waldorf que fazem muito sentido. O rosto de uma boneca Waldorf é muito peculiar. Olhos e boca são bordados, nunca pintados. São pequenos e delicados e não evidenciam uma expressão em particular. Achei isso importante porque as bonecas disponíveis no mercado são estranhas - hiper sexualizadas ou medonhas como a noiva do Chucky. Na Waldorf os contornos do rosto são feitos a partir do recheio e das costuras na parte interna da cabeça. Inacreditável. Quando ela disse que aquela bola de tecido recheada com algodão rústico seria um rosto com nariz e tudo, achei que não daria conta. Estava enganada. Pirei nessa etapa da cabeça.

Felicidade: minha boneca Waldorf articuladíssima! 
Os detalhes finais vão evidenciando a singularidade do processo de criação. Aos poucos fomos percebendo que mesmo recebendo as mesmas instruções e trabalhando com materiais similares, cada pessoa confeccionou uma boneca (ou boneco) diferente. É uma atividade feita em silêncio. Exceto pelas instruções práticas e pelo conteúdo teórico essencial nesse aprendizado, o processo requer introspecção, atenção e intenção nos gestos. Em geral, ouvia-se só a voz da Nina. Sua fala foi intensa e inspirada como convém a uma boa contadora de histórias. Além disso, o conteúdo teórico foi de uma riqueza que levarei algum tempo para processar. O fato é que a experiência de confecção de uma boneca Waldorf articulada provoca muitos questionamentos sobre a nossa forma de viver. Eu poderia ter ido somente com o propósito de aprender a fazer uma boneca, mas decidi que aproveitaria tudo o que a experiência me permitisse. Quando me vi diante da boneca pronta, fiz uma síntese de tudo que emergiu no processo: monetização e padronização da vida, relação com dinheiro, relação com o outro, consumo, criatividade, diversidade, responsabilidade, uso dos recursos e nosso papel no mundo hoje. Encerramos nosso trabalho sentadas em círculo, cada uma com sua criação no colo. O pensamento que fechou a oficina ainda está ecoando em mim:

“Não tenho controle sobre o que chega do mundo, mas posso escolher como lidar com o que chega. E quando devolvo para o mundo, devolvo outra coisa.” Nina Veiga*

O título merece uma explicação:

Minha: é uma experiência muito pessoal que envolve um mergulho na própria infância (2º setênio – 7 aos 14).
Boneca: é um brinquedo carregado de experiências de afeto (por representar uma figura humana), mais do que os outros.
Waldorf: forma de estar no mundo, expressão da singularidade.  
Articulada: expressa a capacidade de movimento, plasticidade, ampliação de possibilidades.

Curiosidade: em alemão, wald é floresta; dorf é aldeia.

Batizei minha boneca de Felicidade.

Sandra Felicidade

*Oficina da Boneca Waldorf Articulada – Curitiba, 12 a 14 de fevereiro.

10 comentários:

  1. Oh, minha querida amiguinha! Que delícia de texto e de reflexão sobre esta experiência criativa, aparentemente tão simples quanto uma brincadeira de criança, mas tão rica em significados! Li seu blog sorrindo, da primeira à última palavra - que, por sinal, não poderia ser outra: Felicidade! Beijos lúdicos e felizes para você!

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    1. Grata pelo carinho e pela visita, Monica! ;-) Beijinhos

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  2. A potência do bom encontro ainda reverbera em mim. Oxalá a vida nos aproxime mais!

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    1. Que a gente continue se reencontrando na espiral da vida! _/\_

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  3. Que lindo trabalho, Sandra! Pena que não tenho como fazê-lo também, muito profundo e deve ter maravilhoso efeito na criança interior. Beijão e curta muito sua Felicidade!

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    1. Oi, querida Adelia! Sim, foi um trabalho em muitos níveis. A Nina Veiga viaja pelo Brasil todo conduzindo essa oficina. Se eu souber de alguma na sua região, te falo. Beijos, querida!

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  4. Nasce a boneca Felicidade!!! Lindo trabalho, linda reflexão. Agradeço!

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    1. Pois é, ela nasceu mesmo! Grata, Rogemara! _/\_

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  5. Que texto lindo Sandra!! Verdade a construção da boneca (o) vai muito além do confeccionar, o pensar e trazer um pouco da nossa infância para o momento é tremento, a experiência é realmente incrível!! Bjoss

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    1. Grata, Rosana! Foi um prazer ter você como companheira nessa experiência! Beijos.

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