quinta-feira, 26 de maio de 2016

A vida te deu um limão?

Algumas pessoas cruzam nosso caminho e deixam uma mensagem que é pra vida toda. Na adolescência (outro dia mesmo) eu tive um professor de redação maravilhoso chamado Manoel. Nós o chamávamos Prof. Manoelzinho. Ele tinha um carisma enorme com a turma e nos instigava muito para que escrevêssemos sobre o que nos inquietava. Eu costumava achar meus textos medianos. Um dia ele entregou minha redação e disse que gostaria de falar comigo depois da aula. Fiquei preocupada. Ele havia gostado muito do meu texto, mas ficou preocupado e queria saber se estava tudo bem comigo. Contei que estava passando por um momento muito difícil com a separação dos meus pais – não só pela separação, mas por todas as implicações. Ter pais separados não era uma coisa tão comum no início dos anos 80. Ele me ouviu com muita atenção e disse: “Esse é um limão que a vida está te entregando e veja só o que você fez. Seu texto está ótimo! A vida te deu um limão? Agarre e crie algo interessante com isso.” Bom, de lá pra cá fui aprendendo a transformar limões e a vida muitas vezes não dá tempo para o mimimi. Tem que ser rápido.

Não estou banalizando o sofrimento causado por uma mudança abrupta, muito ao contrário. Só que a vida pode não dar todo o tempo que a gente gostaria. Passado o tempo necessário para assimilar a nova situação, é preciso fazer movimentos práticos. Muitas vezes o que a gente chama de desastre são os ciclos da vida mesmo. As coisas mudam. Para que surja o novo alguma coisa precisa terminar antes. E ficar tempo demasiado esperando que as coisas voltem a ser como antes pode ser arriscado e inútil, as coisas não vão voltar a ser como antes. A medida da urgência e da cautela depende muito dos filhos. Críticas vêm aos montes, principalmente de quem nunca passou pelo que você está passando, ignore. Normalmente quem já passou pela mesma situação é muito mais empático e solidário, agradeça a presença desses seres benevolentes.

Em meados dos anos 90 abri uma empresa de marketing direto, trabalhando em parceria com uma agência de propaganda. Recém-saída de uma multinacional, queria um trabalho mais independente para poder ficar mais tempo com meus filhos ainda muito pequenos. O trabalho ia muito bem até que uma crise econômica fez nossos principais clientes dispensarem nossos serviços de uma hora pra outra. Foi um verdadeiro caminhão de limões descarregado na porta. Durante um tempo a gente ainda pensa que as coisas vão “voltar ao normal” – o que quer que isso signifique. Mas não foi o caso e era preciso mudar de perspectiva rápido. Foi aí que surgiu um convite de trabalho em Curitiba, cidade que vivia um boom com a chegada das montadoras. A decisão foi rápida, mas a transição foi gradual a fim de organizar tudo o que envolvia mudar para outra cidade com filhos pequenos. As pessoas diziam que era loucura mudar para tão longe, sem ter uma rede de apoio. Uma coisa que a gente aprende quando não há rede de proteção é saltar sem rede de proteção mesmo. Foi o passo de fé e foi a melhor coisa a ser feita. A mudança trouxe experiências de muito crescimento que não teriam existido se as coisas estivessem confortáveis.

Foto: Dalai Lama - Valores Humanos e sua prática na vida cotidiana
Ópera de Arame - Curitiba - 05/06 de abril de 1999
Já em Curitiba, participei de um seminário com o Dalai Lama e a fala mais marcante dele foi sobre sua experiência pessoal no exílio. Ele dizia que mesmo diante da situação mais adversa é possível encontrar coisas muito positivas que não aconteceriam sem aquela experiência. Ele falou sobre a dor de ter fugido de seu país e da opressão em que vive o povo do Tibet. Mas ele disse que foi isso que provocou a expansão do budismo tibetano com sua mensagem de compaixão. Ironicamente, a opressão da China impulsionou a mensagem central do budismo e chamou a atenção do mundo para a questão do Tibet. Ele próprio disse que não teria se tornado um cidadão do mundo com diálogos multilaterais como os que ele mantém hoje. Vale ainda enfatizar que os conhecimentos milenares do budismo têm contribuído muito com os estudos avançados no campo das neurociências.

Não penso que a gente precise sempre aprender pelo caminho mais difícil, dolorido. Acho que é muito bom evoluir com experiências agradáveis e desejadas, mas nem sempre vai ser assim. Então é melhor desenvolver uma plasticidade diante da vida, porque muitas vezes o que estamos encarando como negativo não é o fato em si, mas a percepção que temos dele. Meu querido mestre Gaiarsa dizia: “Ao entrar em uma situação, não vejo o que está acontecendo. Vejo somente se o que está acontecendo está ou não de acordo com o que devia estar acontecendo. O resto é ‘errado’, não devia ter acontecido, não devia estar ali. Precisa ser desfeito assim que possível. Ninguém pensa o único pensamento sensato: se não aconteceu o que se esperava, vamos experimentar de outro jeito.”

É melhor ter preferências do que exigências. Dessa forma, se as coisas tomam um rumo diferente do esperado isso não gera um sofrimento prolongado e desnecessário, apenas uma frustração momentânea e a necessária mudança de rota. Alguém duvida que a habilidade de transformar os limões da vida seja a habilidade do momento? Charles Einsenstein (Economia Sagrada) diz que as coisas não voltarão ao “normal”, simplesmente porque está surgindo uma nova normalidade. Então a velha forma de lidar com as coisas não vai funcionar mais. Por isso estamos vendo tantas crises no mundo. Isso não é necessariamente ruim, é uma nova ordem. Significa que temos que criar uma nova forma de conduzir a vida.

Muitas vezes tive que lidar com o limão que a vida trouxe. Aprendi a enxergar de outra forma e, sempre que possível, procuro tirar o rótulo de “bom” ou “ruim” daquilo que se apresenta. No fim, tudo é experiência - e alguns atributos a gente nunca desenvolveria se a situação tivesse sido sempre favorável. Concordo com Renato Russo, quando tudo parece dar errado, acontecem coisas boas que não teriam acontecido se tudo tivesse dado certo.

Sandra Felicidade

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